Felino

Ronrono a teus pés,
caminho entre suas pernas
passando meu corpo no teu.
Te busco, deitada na cama,
descansando do dia e suas chatices,
busco teu afago querido e quisto.
Mio baixo, manhoso, conquistando um espaço,
Brinco com seus cabelos,
Mordisco a ponta de seus dedos.
Te vejo sorrindo
enquanto meus bigodes acariciam a palma de sua mão.
Você sabe que, por mais que eu fuja,
Sempre volto.
Aqui é minha casa,
Você é minha companhia.

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JBG

Por trás desse nariz vermelho e mágico
há uma mulher que sente e caminha.
Luta e labuta sem parada certa,
porque quem sonha,
quer germinar o mundo.
Quem sabe o quanto dói a alma
De quem, por missão, escolheu
o riso?
Mulher de seu tempo, fortaleza
Destino que se descortina
Podendo ser Ophélia,
preferiu ser Adelaide.
Podendo ser partida,
preferiu ser esperança.
Ser sonho justo para um mundo melhor.
Seus segredos guardados em lágrimas,
Suas dores, tão suas,
Suas dúvidas tão humanas.
É apenas o tempo que passa.

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Céu noturno

Ali, debaixo do céu noturno
com estrelas que nos espiavam
e algumas que corriam pelo céu,
como meus beijos pelo teu corpo,
Nos amamos, como se o tempo
não tivesse fim.
Nos tornamos um,
Na fome de nossas carnes
Na urgência do que sentimos.
Fomos além da noite
fomos até os primeiros raios
da aurora
Nos trazer de volta,
da melhor viagem que tivemos.

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Insônia, mais um capítulo a ler, mais uma música, mais uma volta pela casa escura enquanto o tempo passa. A cabeça não para, dá voltas como se fosse uma roda gigante, um moto perpétuo. Um pêndulo que balança enquanto vago dentro de mim.

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Das leituras e das coisas esquecidas.

Quando, o início do ano, em uma conversa com a Carol (Vontaderia) aceitei a ideia de fazer um diário de leitura de Ulysses, eu já sabia que seria uma missão hercúlea. Claro que o livro impõe respeito, tanto pela sua conhecida dificuldade, tanto quanto pelo número de páginas. Imaginava eu, então, que seria uma leitura arrastada, com um ritmo muito aquém de outras leituras que tinha feito até então. Muito dessa sensação vem da lembrança que tenho da primeira tentativa de leitura do livro.
Minha surpresa, ao começar a ler, foi que, tudo estava tão melhor. A leitura fluiu bem nas primeiras 100 páginas e fiquei olhando pelo retrovisor da minha história para tentar entender o motivo de eu ter sofrido tanto anteriormente.Claro que foi culpa minha. Pensei então em fazer uma postagem a cada 200 páginas lidas para que não ficasse cansativo para mim e para você o relato sobre o livro.
Acontece que algumas coisas da vida extra livro, me massacraram neste período. Passei por uma mudança de endereço e a necessidade de reorganizar o espaço e encontrar um lugar melhor para os vários livros que estavam encaixotados há tantos anos, visto que meu endereço anterior eu não tinha espaço para tudo. Não que tenha muito mais agora, só que tudo está mais confortável, mas está bem melhor. Tudo isso para dizer que a primeira barreira de 200 páginas já foi ultrapassada e segue claudicante a leitura, não por conta dela, mas da vida mesmo que anda tomando meu tempo com a arrumação e tudo o mais. Até porque não sei ainda em que caixa está o meu caderno de notas sobre a leitura, mas assim que o encontrar teremos o tal diário de leitura.

Para dar uma respirada da leitura de “Ulysses” eu também estou lendo (há um tempo enorme, eu sei), “A Livraria 24 horas de Mr. Penumbra”. É uma leitura bem mais leve e descompromissada. Tem sido divertida e assim que terminar pretendo fazer um texto aqui também.

Queria falar de tudo o que chegou aqui na nova casa já, mas ficará para um próximo post. Porém já deixo avisado que foram coisas bem legais e algumas foram boas surpresas. Mas realmente, agora não.

 

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Feliz aniversário Raul

O último escrito de Raul na véspera da morte.

” Hoje é aniversário do meu pé, Ele é dois meses mais velho do que eu…”  esta frase é de um texto escrito por Raul Seixas em um dos seus cadernos e quem quando o li no livro “Baú do Raul” me fez sorrir e me sentir mais confortável em vasculhar um pouco da intimidade do homem Raul, mesmo que o material tenha passado pela escolha de Kika e Tárik de Souza, afinal de contas todos nós já sabíamos muito sobre o artista Raul Seixas. Falo dessa divisão entre eles pois é assim que o vejo. Hoje seria o aniversário de 72 do homem Raul, da mente por trás do mito e das confusões vividas pelo Maluco Beleza.
Falo aqui do filho mais velho de Raul Varella e Maria Eugênia, do irmão de Plínio, do pai de Simone, Scarlet e Vivian e amigo dos poucos amigos.

página interna do livro “O Baú do Raul Revirado”

Raul tornou-se importante para mim quando eu era ainda muito novo, ouvindo-o em fitas k-7 sentado na sala de casa e passando pelos problemas que nunca param. Ali, inseridas em suas letras haviam tantas referências de um mundo que, já ali, me interessava muito. para mim, além da importância musical de Raul para mim, ele tem também este outro lado de ser um incentivador a procurar as coisas. Livros, autores, sons, bandas, significados e tanta coisa esse baiano me trouxe que não posso ficar aqui enumerando. Mas o que mais trouxe de significativo foi, sem dúvida alguma, os amigos. Só por isso eu acho que ele merece esse carinho. OBrigado RAUL, feliz aniversário meu velho.

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Projeto “Ulysses”

Sim, resolvi começar a leitura a sério de “Ulysses” do Joyce. Digo “a sério” porque já comecei essa empreitada uma vez mas não foi uma leitura decente, foi mais um passar de olhos pelas páginas. Desta vez eu resolvi aproveitar a viagem, então não fiz nenhuma programação de encerramento, não contabilizei quantas páginas por dia irei ler, apenas lerei.
Primeiro tenho que dizer que demorei para comprar a minha edição, acho que um livro desses temos que ter o nosso mesmo, para que possamos (ou não) nos estendermos na leitura e tudo o mais que isso possa envolver. Encontrei o meu através da Vontaderia, qual não foi a minha surpresa ao constatar que, pouco tempo depois ela já tinha conseguido uma nova edição do mesmo para vender, muito competente essa moça. Caso você não a conheça clique no link aqui e resolva essa questão Vontaderia. Ela mesma me deu a ideia de fazer um diário de leitura e por este motivo resolvi que o melhor seria deixar para o segundo semestre deste ano o início da empreitada.
Estava passando um café há dois dias quando me dei conta que era o “Bloomsday” e pensei que seria mesmo uma boa data para começar, dane-se que seria um clichê e que meio mundo também esteja fazendo o mesmo, o que vale é a leitura. A minha edição é de 2012 da Penguin-Companhia e faz parte do Clássicos. A tradução é de Caetano Galindo , tem uma introdução deliciosa de ler escrita pelo irlandês Declan Kiberd e a coordenação editorial é de Paulo Henriques Britto que em suas 70 páginas dá uma pequena ideia da dimensão que será a leitura. Ele traz fatos interessantes sobre a escrita e a confusão que foi o surgimento de uma obra como Ulysses. Um outro livro que poderia ser lido como uma biografia da edição do livro, e algumas pessoas o trata desta forma, é o ótimo “Shakespeare and Company” livro que fala sobre a importante livraria parisiense que existiu no entre guerras e que foi, também, um certo imã para a Geração Perdida da qual faziam parte, entre outros, Hemingway e James Joyce. Esse livro eu li com indicação do grande amigo Carlos Freitas e rendeu um texto aqui no blog, clica no link Shakespeare and Company. Quer dizer, estou aqui chovendo no molhado, porque um monte de gente sabe sobre isso tudo. Então é isso, vamos ler e aproveitar a leitura.  Se não for desta forma não há mérito algum. Boa leitura.

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“Minha razão de viver” Biografia de Samuel Wainer

O jornalista Samuel Wainer desde cedo esteve muito próximo ao poder. Ainda quando era funcionário de Assis Chateubriand  e dos Associados acabou conhecendo, em uma viagem ao sul, o ex ditador Getúlio Vargas de quem se tornaria grande amigo e defensor, na mesma oportunidade conheceu também João Goulart. Depois foi “amigo” de J.K. também, ou seja, tinha quase uma cadeira cativa seja no Catete, seja no Planalto. Por isso sua história é tão importante para o século XX no Brasil  e por isso fiquei tão feliz em reler a biografia “Minha razão de Viver – Memórias de um Repórter” lançado originalmente em 1987 pela Record com 282 págs. Tenho a 18ª edição de 2001 e que me permitiu reler depois de 20 anos uma história que conhecia que havia sido esquecido no meio de tanta coisa em minha cabeçorra.
Primeiro de tudo é conhecer não só o homem Samuel, envolto a vida toda com a sacro missão de noticiar, de ser espectador e narrador em primeiro plano de nossa história, sobretudo a questão política, a questão do petróleo de nosso país nos anos 40/50. Tentar entender de onde veio esse filho de imigrantes bessarabianos, trabalhador desde muito cedo foi construindo seu caminho que levaria a um império importantíssimo como foi o jornal “Última Hora” que se espalhou por algumas capitais brasileiras e outras cidades. Os relatos saborosos sobre seus momentos de correspondente de guerra, de ter feito a cobertura do julgamento de Nuremberg, de sua amizade com Orson Welles, de seus muitos momentos diante de fatos ímpares.
A história, em primeira pessoa (autobiografia, né?), nos leva a participar de alguns desses momentos que lemos e aprendemos na época em que estudamos. Ter o relato de quem foi, muitas vezes, testemunha e, mesmo em alguns casos, ser personagem.
Foi em uma matéria escrita por Wainer que Getúlio saiu do exílio em São Borja para a eleição presidencial de 1950 e mais adiante saiu da vida para entrar na história.

Wainer e Getúlio , amigos e cúmplices

Foi através de Getúlio que nasceu, inclusive, a Última Hora. Foi uma ideia dada pelo presidente e também obteve do homem algumas facilidades junto a alguns amigos e instituições. E é justamente neste ponto em que me senti o mais imbecil dos néscios. Quando li a primeira vez este livro não me calou tão grandemente as falcatruas relatadas no livro. Como podemos ter achado, em algum momento, que malas de dinheiro que vem e vão, seriam normais e/ou aceitáveis. Mas é justamente isso que Wainer relata, não só que soubesse da entrega de algumas dessas malas, como ele mesmo as levou algumas vezes. Relata os fatos com uma paz danada, ciente de que esses atos também fizeram parte de sua história. Poxa e eu estava gostando do relato da guerra entre o narrador/personagem e o corvo Carlos Lacerda (um dos personagens de nossa história moderna por quem nunca nutri nenhum tipo de simpatia).  Mas fica o valor do relato e a chance de conhecermos e repensarmos o Brasil que somos e porque somos. O livro vale por seu registro e também pelo fato de não ser percebido que o autor tenha se poupado ao recontar sua vida e seus feitos. Se puder, leia e tire suas conclusões.

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“Adoniran Barbosa – Uma Biografia”

Quando eu era pequeno e visitava a casa de meus avós em Bauru fazia uma tremenda viagem, sobretudo musical, guiado pelo lindo violão que “seu” Orlando tinha pendurado na porta de um quarto que ele, já mais perto de seus últimos vinte anos de vida, transformou numa salinha para assistir VHS. Mas quero falar das vezes em que sentávamos na área, ou na garagem, para ouvir ou ele ou minha tia, ou meu pai, tocar as músicas que mais gostavam. Tocavam boleros, guaranias, bossa nova e alguns sambas. Eu sempre adorei as composições de Adoniran Barbosa, mesmo não sabendo, ainda, quem era o tal e só as conhecia quando interpretadas pelos Demônios da Garoa.
Essas memórias me foram revisitadas enquanto eu li a ótima biografia de Adoniran escrita por Celso de Campos Jr. e lançada pela Editora Globo em 2003. A edição que tenho foi revista e ampliada em comemoração ao centenário de nascimento de João Rubinato, nome de batismo de Adoniran ocorrido em 2010, ele só adotaria o nome artístico Adoniran em meados de 1934. A leitura flui muito bem, o texto de Celso de Campos Jr. e leve e traz uma gama de informações relevantes para compreender não só a vida e obra do artista multifacetado, Adoniran era rádio ator, ator de cinema e TV além de compositor e cantor, mas também um retrato da cidade de São Paulo e do Brasil no espaço dos mais de setenta anos que viveu.
Relato bem humorado e emocionante o livro não poupa o biografado, não doura a pílula, e mostra um homem que, ao mesmo tempo em que era um retrato de sua época, também soube flertar com a atemporalidade de sua obra. Figura inteligente, soube como poucos, retratar a classe mais baixa da população e representou nos programas de rádio e algumas apresentações de circo, figuras como os moradores do morro, os taxistas, os comerciantes, os biscateiros, os vagabundos e, acima de tudo, os maloqueiros. Sempre com uma fala característica que misturava as heranças italianas e dos negros de então no versar e falar. Criou bordões e personagens, juntos com Osvaldo Moles, como Zé Conversa, o taxista Giuseppe Pernafina e o famoso Charutinho Espúrio da Silva. Hoje em dia seria tratado como machista, racista e outras coisas que, se ditas hoje em dia, trariam mais problemas com a “dona justa” do que reconhecimento e sucesso. Imagina ligar o rádio, ou mesmo ver na TV, e se deparar com uma figura soltando um “Chora na rampa, negrão.”
Celso traça, em seu livro, um ótimo panorama da era de ouro do rádio nacional e traz o surgimento de grandes ídolos que foram contemporâneos do biografado, como eram os bastidores de alguns dos programas, das viagens feitas pelo artista, algumas parcerias e como elas surgiram. Claro que há também alguns detalhes da vida íntima de Adoniran. Seus casamentos, família, filha, casas, manias e tudo aquilo que o cercava e o definia.

Resultado de uma pesquisa apurada o livro não deixa dúvida acerca da importância de Adoniran para o samba paulistano e muito menos para a vida cultural do país, visto o tanto de músicas compostas por ele que permanecem ainda hoje sendo executadas em rádios ou rodas. Ele foi , e é, um desses grandes artistas que estarão sempre em nosso cotidiano, mesmo que alguns não conheçam a  figura do simpático senhor com bigode fininho, chapéu de palha e aba reta e terno. Com uma voz rouca e um falar peculiar e retratando mesmo uma São Paulo que já não existia quando ele era vivo, Adoniran deixou saudade. O livro mata um pouco de tudo isso e não deixa dúvida, é uma saudosa maloca.

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Trancado no quarto
com meus amigos antigos
discos e livros, toques geniais.
Apostando  as fichas que,
na próxima encruzilhada,
aparecerá aquela velha pessoa
com sua proposta bem vinda
Para trilhar meu caminho
e embarcar ao encontro dos meus iguais.
E entre a escada para o céu
Um gole e outro do meu hidromel
O martelo dos deuses, druidas e magos
Abramelim e os segredos atemporais.
Eu, guardião dos segredos do sagrado Maluco
moleque gentil de tantos acertos
de dolorosos enganos, de sociedades secretas
Zumbindo a anarquia
Carimbando o sucesso.
Solidão dos gênios calados, indóceis messias
de homens e números, baião e roquizinho.
Meu mestre ,irmão, amigo e pai.
Sou só um garoto calado no canto
tocando minha gaita.
Tão puto e louco
Tão alto e tão certo
que este caminho é meu destino.
Não sigo sozinho,
Tenho alguns amigos
que dividem comigo o sonho e a trama
a nota e o toque
de um blues novinho.
Que trazia no sorriso
Escondido nos cantos,
Nos cabelos brancos,
Nos olhos alertas,
No riso aberto.
Meu manto de estrelas
Cobrindo meu peito,
Meu sono, meu leito
São apenas canções
E livros abertos.
Tão livre e tão certo
Que tudo é presente, passado e futuro.
E no jogo dos ratos eu corto o baralho,
Sem medo e sem fim.

É só mais um lance
pode ser que amanhã,
Já não esteja assim.

Para Sylvio Passos (Tupã 09 de maio de 17)
 

 

 

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