Projeto “Ulysses”

Sim, resolvi começar a leitura a sério de “Ulysses” do Joyce. Digo “a sério” porque já comecei essa empreitada uma vez mas não foi uma leitura decente, foi mais um passar de olhos pelas páginas. Desta vez eu resolvi aproveitar a viagem, então não fiz nenhuma programação de encerramento, não contabilizei quantas páginas por dia irei ler, apenas lerei.
Primeiro tenho que dizer que demorei para comprar a minha edição, acho que um livro desses temos que ter o nosso mesmo, para que possamos (ou não) nos estendermos na leitura e tudo o mais que isso possa envolver. Encontrei o meu através da Vontaderia, qual não foi a minha surpresa ao constatar que, pouco tempo depois ela já tinha conseguido uma nova edição do mesmo para vender, muito competente essa moça. Caso você não a conheça clique no link aqui e resolva essa questão Vontaderia. Ela mesma me deu a ideia de fazer um diário de leitura e por este motivo resolvi que o melhor seria deixar para o segundo semestre deste ano o início da empreitada.
Estava passando um café há dois dias quando me dei conta que era o “Bloomsday” e pensei que seria mesmo uma boa data para começar, dane-se que seria um clichê e que meio mundo também esteja fazendo o mesmo, o que vale é a leitura. A minha edição é de 2012 da Penguin-Companhia e faz parte do Clássicos. A tradução é de Caetano Galindo , tem uma introdução deliciosa de ler escrita pelo irlandês Declan Kiberd e a coordenação editorial é de Paulo Henriques Britto que em suas 70 páginas dá uma pequena ideia da dimensão que será a leitura. Ele traz fatos interessantes sobre a escrita e a confusão que foi o surgimento de uma obra como Ulysses. Um outro livro que poderia ser lido como uma biografia da edição do livro, e algumas pessoas o trata desta forma, é o ótimo “Shakespeare and Company” livro que fala sobre a importante livraria parisiense que existiu no entre guerras e que foi, também, um certo imã para a Geração Perdida da qual faziam parte, entre outros, Hemingway e James Joyce. Esse livro eu li com indicação do grande amigo Carlos Freitas e rendeu um texto aqui no blog, clica no link Shakespeare and Company. Quer dizer, estou aqui chovendo no molhado, porque um monte de gente sabe sobre isso tudo. Então é isso, vamos ler e aproveitar a leitura.  Se não for desta forma não há mérito algum. Boa leitura.

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“Minha razão de viver” Biografia de Samuel Wainer

O jornalista Samuel Wainer desde cedo esteve muito próximo ao poder. Ainda quando era funcionário de Assis Chateubriand  e dos Associados acabou conhecendo, em uma viagem ao sul, o ex ditador Getúlio Vargas de quem se tornaria grande amigo e defensor, na mesma oportunidade conheceu também João Goulart. Depois foi “amigo” de J.K. também, ou seja, tinha quase uma cadeira cativa seja no Catete, seja no Planalto. Por isso sua história é tão importante para o século XX no Brasil  e por isso fiquei tão feliz em reler a biografia “Minha razão de Viver – Memórias de um Repórter” lançado originalmente em 1987 pela Record com 282 págs. Tenho a 18ª edição de 2001 e que me permitiu reler depois de 20 anos uma história que conhecia que havia sido esquecido no meio de tanta coisa em minha cabeçorra.
Primeiro de tudo é conhecer não só o homem Samuel, envolto a vida toda com a sacro missão de noticiar, de ser espectador e narrador em primeiro plano de nossa história, sobretudo a questão política, a questão do petróleo de nosso país nos anos 40/50. Tentar entender de onde veio esse filho de imigrantes bessarabianos, trabalhador desde muito cedo foi construindo seu caminho que levaria a um império importantíssimo como foi o jornal “Última Hora” que se espalhou por algumas capitais brasileiras e outras cidades. Os relatos saborosos sobre seus momentos de correspondente de guerra, de ter feito a cobertura do julgamento de Nuremberg, de sua amizade com Orson Welles, de seus muitos momentos diante de fatos ímpares.
A história, em primeira pessoa (autobiografia, né?), nos leva a participar de alguns desses momentos que lemos e aprendemos na época em que estudamos. Ter o relato de quem foi, muitas vezes, testemunha e, mesmo em alguns casos, ser personagem.
Foi em uma matéria escrita por Wainer que Getúlio saiu do exílio em São Borja para a eleição presidencial de 1950 e mais adiante saiu da vida para entrar na história.

Wainer e Getúlio , amigos e cúmplices

Foi através de Getúlio que nasceu, inclusive, a Última Hora. Foi uma ideia dada pelo presidente e também obteve do homem algumas facilidades junto a alguns amigos e instituições. E é justamente neste ponto em que me senti o mais imbecil dos néscios. Quando li a primeira vez este livro não me calou tão grandemente as falcatruas relatadas no livro. Como podemos ter achado, em algum momento, que malas de dinheiro que vem e vão, seriam normais e/ou aceitáveis. Mas é justamente isso que Wainer relata, não só que soubesse da entrega de algumas dessas malas, como ele mesmo as levou algumas vezes. Relata os fatos com uma paz danada, ciente de que esses atos também fizeram parte de sua história. Poxa e eu estava gostando do relato da guerra entre o narrador/personagem e o corvo Carlos Lacerda (um dos personagens de nossa história moderna por quem nunca nutri nenhum tipo de simpatia).  Mas fica o valor do relato e a chance de conhecermos e repensarmos o Brasil que somos e porque somos. O livro vale por seu registro e também pelo fato de não ser percebido que o autor tenha se poupado ao recontar sua vida e seus feitos. Se puder, leia e tire suas conclusões.

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“Adoniran Barbosa – Uma Biografia”

Quando eu era pequeno e visitava a casa de meus avós em Bauru fazia uma tremenda viagem, sobretudo musical, guiado pelo lindo violão que “seu” Orlando tinha pendurado na porta de um quarto que ele, já mais perto de seus últimos vinte anos de vida, transformou numa salinha para assistir VHS. Mas quero falar das vezes em que sentávamos na área, ou na garagem, para ouvir ou ele ou minha tia, ou meu pai, tocar as músicas que mais gostavam. Tocavam boleros, guaranias, bossa nova e alguns sambas. Eu sempre adorei as composições de Adoniran Barbosa, mesmo não sabendo, ainda, quem era o tal e só as conhecia quando interpretadas pelos Demônios da Garoa.
Essas memórias me foram revisitadas enquanto eu li a ótima biografia de Adoniran escrita por Celso de Campos Jr. e lançada pela Editora Globo em 2003. A edição que tenho foi revista e ampliada em comemoração ao centenário de nascimento de João Rubinato, nome de batismo de Adoniran ocorrido em 2010, ele só adotaria o nome artístico Adoniran em meados de 1934. A leitura flui muito bem, o texto de Celso de Campos Jr. e leve e traz uma gama de informações relevantes para compreender não só a vida e obra do artista multifacetado, Adoniran era rádio ator, ator de cinema e TV além de compositor e cantor, mas também um retrato da cidade de São Paulo e do Brasil no espaço dos mais de setenta anos que viveu.
Relato bem humorado e emocionante o livro não poupa o biografado, não doura a pílula, e mostra um homem que, ao mesmo tempo em que era um retrato de sua época, também soube flertar com a atemporalidade de sua obra. Figura inteligente, soube como poucos, retratar a classe mais baixa da população e representou nos programas de rádio e algumas apresentações de circo, figuras como os moradores do morro, os taxistas, os comerciantes, os biscateiros, os vagabundos e, acima de tudo, os maloqueiros. Sempre com uma fala característica que misturava as heranças italianas e dos negros de então no versar e falar. Criou bordões e personagens, juntos com Osvaldo Moles, como Zé Conversa, o taxista Giuseppe Pernafina e o famoso Charutinho Espúrio da Silva. Hoje em dia seria tratado como machista, racista e outras coisas que, se ditas hoje em dia, trariam mais problemas com a “dona justa” do que reconhecimento e sucesso. Imagina ligar o rádio, ou mesmo ver na TV, e se deparar com uma figura soltando um “Chora na rampa, negrão.”
Celso traça, em seu livro, um ótimo panorama da era de ouro do rádio nacional e traz o surgimento de grandes ídolos que foram contemporâneos do biografado, como eram os bastidores de alguns dos programas, das viagens feitas pelo artista, algumas parcerias e como elas surgiram. Claro que há também alguns detalhes da vida íntima de Adoniran. Seus casamentos, família, filha, casas, manias e tudo aquilo que o cercava e o definia.

Resultado de uma pesquisa apurada o livro não deixa dúvida acerca da importância de Adoniran para o samba paulistano e muito menos para a vida cultural do país, visto o tanto de músicas compostas por ele que permanecem ainda hoje sendo executadas em rádios ou rodas. Ele foi , e é, um desses grandes artistas que estarão sempre em nosso cotidiano, mesmo que alguns não conheçam a  figura do simpático senhor com bigode fininho, chapéu de palha e aba reta e terno. Com uma voz rouca e um falar peculiar e retratando mesmo uma São Paulo que já não existia quando ele era vivo, Adoniran deixou saudade. O livro mata um pouco de tudo isso e não deixa dúvida, é uma saudosa maloca.

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Trancado no quarto
com meus amigos antigos
discos e livros, toques geniais.
Apostando  as fichas que,
na próxima encruzilhada,
aparecerá aquela velha pessoa
com sua proposta bem vinda
Para trilhar meu caminho
e embarcar ao encontro dos meus iguais.
E entre a escada para o céu
Um gole e outro do meu hidromel
O martelo dos deuses, druidas e magos
Abramelim e os segredos atemporais.
Eu, guardião dos segredos do sagrado Maluco
moleque gentil de tantos acertos
de dolorosos enganos, de sociedades secretas
Zumbindo a anarquia
Carimbando o sucesso.
Solidão dos gênios calados, indóceis messias
de homens e números, baião e roquizinho.
Meu mestre ,irmão, amigo e pai.
Sou só um garoto calado no canto
tocando minha gaita.
Tão puto e louco
Tão alto e tão certo
que este caminho é meu destino.
Não sigo sozinho,
Tenho alguns amigos
que dividem comigo o sonho e a trama
a nota e o toque
de um blues novinho.
Que trazia no sorriso
Escondido nos cantos,
Nos cabelos brancos,
Nos olhos alertas,
No riso aberto.
Meu manto de estrelas
Cobrindo meu peito,
Meu sono, meu leito
São apenas canções
E livros abertos.
Tão livre e tão certo
Que tudo é presente, passado e futuro.
E no jogo dos ratos eu corto o baralho,
Sem medo e sem fim.

É só mais um lance
pode ser que amanhã,
Já não esteja assim.

Para Sylvio Passos (Tupã 09 de maio de 17)
 

 

 

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Putos BRothers Band – Alive in Pompéia. o Show

Fim de semana passado estive em Pompéia para acompanhar o show Tributo a Raul Seixas  e lançamento do primeiro CD “ Tá todo mundo PUTO Brother” da Putos Brothers Band. A apresentação aconteceu no clube Nova Recrê, um espaço revitalizado e funcional que conta com uma equipe profissional e simpática que nos recebeu muito bem e esteve sempre de prontidão para sanar qualquer imprevisto que pudesse acontecer. A atual diretoria está de parabéns pelo sucesso do espaço. Quem dera outros clubes em nossa região tivesse a sorte de contar com uma equipe assim, que acredita que ainda é possível manter um bom clube como opção de lazer e entretenimento para suas comunidades.
Trazer ao público do centro-oeste paulista um show que homenageia Raul e conta ainda com a banda de seu fiel escudeiro foi uma grande sacada que marca história. O show sendo em homenagem à Raul já seria uma grande pedida, agora ter a chance de participar do lançamento de um CD tão bom só fez aumentar a diversão.
Cheguei de tarde ainda que a intenção era bater um papo com os caras e tomar uma(s) cerveja(s). Tinha já alguns bons anos que não via o Sylvio e sete  anos que não via Agnaldo Araújo, os outros integrantes da banda conheci ali na hora. Presenciei um reencontro entre Sylvio e um amigo, de antes da fundação do Raul Rock Club, o grande Carlão que hoje mora em Herculândia.

Sylvio Passos e o amigo Carlão

O Show é coeso, com um set list que engloba alguns dos grandes sucessos de Raul, mas também traz boas surpresas ao tocar algumas que não tocam costumeiramente nas rádios como “Segredo da Luz”, “Judas” e “Coisas do Coração” e “Nuit”. Algumas canções contaram com a intervenção artística de Ari Seixista que, paramentado conforme a música que era executada, fazia as vezes de um etéreo Don Raulzito cheio de movimentos e caras.

Sylvio e Ari Seixista

O espírito anárquico seixista presente nas inserções de vinhetas em que o próprio Raul dava seu recado coube na proposta e serviu de amarração como se unissem os atos de um espetáculo teatral. Estava tudo no ponto: os arranjos, a atitude e a capacidade dos integrantes da banda conquistaram a galera que foi cantando junto os sucessos e conhecendo uma ou outra

Agnaldo Araújo,voz e guitarra.

Algumas músicas do primeiro cd da banda também foram tocadas e ouvi-las ao vivo só aumentou a certeza de que o disco é bom do começo ao fim.  Músicas pra curtir alto, cantada alto e acompanhada por amigos e Jack ou uma cerveja. Uma reflexiva canção em homenagem à Raul e outra para Robert Johnson.

André Lopes

Uma mulher que parte ou a morte que busca, há tantas possibilidades na leitura, mas somente a certeza de que ela vem de trem.
Quem ainda não conhece esse trabalho está perdendo a chance, ainda existem boas coisas surgindo no horizonte cultural do Brasil e devemos experimentar o novo.

Adriano Araújo, baixo

A Banda

A Putos não é simplesmente uma banda nova que surge no cenário brasileiro, até porque já estão há dez anos em ebulição e caminhada que culminou no lançamento do primeiro cd. Formada por Sylvio Passos (gaita), Agnaldo Araújo (Guitarra e voz), Adriano Araújo (baixo e backing vocal) e André Lopes (bateria). A produção do disco demorou quatro anos e chega agora com um som autoral, potente, poético e reflexivo, e que deve trilhar o bom caminho do sucesso.

Conheça a banda: https://putosbrothersband.wordpress.com/about/

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Nada funciona corretamente e parece que levo um tempo enorme para realizar as tarefas mais fáceis. Escrever não ó problema, este seria conseguir focar em um único assunto. Claro que tenho algumas dúvidas, claro que tenho algumas certezas, mas isso não tem me ajudado. Só queria que tudo isso passasse rápido.

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“Todos iguais, mas um mais iguais que os outros”

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Há algo que me incomoda no frutífero universo dos canais, blogs, páginas ou outras plataformas literárias. Chega a me cansar, e a mesmo deixar de acompanhar determinadas pessoas, essa onda que é a repetição de informação provocada pela mesmice. Claro que sei da liberdade individual de cada um fazer o que bem entender, mas é  que está tão chato acompanhar as publicações simplesmente porque está  tudo a mesma coisa. Cito como exemplo outubro que é o “Mês do Terror”: chove leitura dos mesmos livros de sempre (Exorcista, algum relato sobre o casal Warren, alguma saga de vampiros, os mesmos Kings, os mesmos Baker, os mesmos dos mesmos. Deve haver outras coisas boas que não são lidas, ou não estão na moda e nem na lista de lançamentos das editoras. Em conversa com um amigo que, também tem um canal voltado a este nicho, comentávamos que, esta novidade da tal da internet ainda é muito recente e estamos mesmo descobrindo como se joga o jogo, ainda definindo regras e parâmetros. Estamos construindo uma estrada que, se continuarmos a pavimentar assim, nos levará à mesmice e pasteurização de costumes e pensamento. O problema não é associar a leitura a uma época determinada, ou a formação de clubes de leitura (virtual ou não) com a intenção de leitura e discussão de uma obra específica, sobre isso sou muito favorável e admiro que consegue participar. Mas é a fala de argumentos para se falar dos livros lidos, é o discurso que cansa, parece que todos gravaram o mesmo roteiro escrito pelo mesmo autor. O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues tem uma frase que eu adoro: “Quando todos pensam igual, ninguém está pensando”. Qual o problema em dizer que não gostou de tal livro, escrita ou tradução? Não somos obrigados a gostar de nada, nem a desgostar. Claro que muitos ainda estão começando a sua vida de leituras e é legal poder partilhar, poder descobrir que há mais pessoas que leem, que curtem, que querem mais e mais. Talvez esses mesmos ainda não tenham descoberto sua voz própria, seu caminho, sua linguagem, seus “sim” e “não”.
O exército de mimizentos enchem os comentários contrários àqueles que falam contra suas modinhas e seus autores tão normais quanto tomate na feira, já li comentários odiosos mesmo, pessoas chamando a outra de burra, afirmando que tal pessoa não sabe ler, que seu autor é o melhor do mundo. Mas, e a individualidade? E o pensamento de cada um?
Leio o que quero, quando quero e levo o tempo que levar. Alguns livros que me chegaram muito badalados, não passou de leitura chata, não vi esse brilho todo que todos defendiam. Tenho a minha história e minha própria bagagem para carregar, ler é mergulhar em si com auxílio.
Se a leitura é uma experiência individual, posto que cada um compreende, ou não, de uma forma íntima, como lemos ou assistimos a tantas análises tão semelhantes, inclusive com o recorrente uso dos mesmos termos. Todos estão lendo os mesmos livros, tendo a mesma experiência e falando as mesmas coisas. Me parece que, esta pasteurização das opiniões, em mim deixa mais com pulga atrás da orelha do que desperta o desejo de leitura, ou de conhecer um novo autor ou estilo. Algumas vezes até tento ler algo depois de alguns anos do boom, nenhuma das vezes foi consciente. Apenas me dei conta, ou na metade final da leitura, ou já no fim.
Não é também que o livro, filme, série, não possa ser tão bom assim como todos dizem. Mas é a fraca argumentação sobre as obras que me incomoda. O uso constante de termos que já se banalizaram pelo uso constante em conversas ou pretensos elogios também me afastam. Nada é top para mim, nada é perfeito. Assim como o que é belo para um, para outro não passa de corriqueiro. O que é leitura obrigatória para outros, seja porque é moda, porque mudaram a capa, porque a lombada tem um detalhe a mais, para outros é apenas um talvez. Não li boa parte dos livros
Que todos estão “resenhando”, nem pretendo ler. A minha leitura é movida pela curiosidade e prazer. Ou então pelo reencontro com alguma história já sabidamente boa para mim. Leio o que quero e quando quero, no meu ritmo e no meu jeito. Não leio para competir com ninguém em quantidade de livros lidos por ano. Se leio bastante em um mês, não quer dizer que no mês seguinte eu leia o mesmo tanto. Depende muito do tempo que tenho livre e de como anda a minha cabeça. Não me importo em voltar algum parágrafo se não compreendi da primeira vez, não me incomoda parar a leitura para digerir melhor o que vi, não me incomoda pensar um pouco mais. Vamos aprende
Aprendendo com o tempo que nosso tempo é único. Não há ordem unida, não é marcha militar, nem desfile, é leitura. É entrega e permissão, é a realização de uma vontade. Ler é fazer amor. Pode até ser rápido, mas tem que ser bom.

*a frase é de autoria de George Orwell e está em seu romance “A Revolução dos Bichos”

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“A mulher calada – Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia” de Janet Malcolm

capa da edição brasileira

capa da edição brasileira

Comecei janeiro lendo um dos gêneros que mais gosto, biografia. Na verdade não é bem uma biografia, mas uma biografia de biografias escritas sobre a poetisa norte-americana Sylvia Plath. Escrito pela jornalista Janet Malcolm e publicado aqui pelo selo Companhia de Bolso da Cia das Letras, o livro pretende demonstrar, através da análise de algumas trabalhos publicados sobre Plath e seu universo íntimo e laboral, como é tênue a linha que separa o trabalho sério de contar a história de alguém e como tratar tudo de uma forma não tão respeitosa, o que é fato real e o que é ficção.
A intenção em demonstrar que parte do processo que envolve a produção de uma obra deste gênero não é navegar em águas tranquilas (trato com familiares, amigos, agentes, detentores de direitos autorais, pessoas que simplesmente acham que tem alguma boa história com o biografado e outras situações), fica claro quando somos apresentados ao ex marido (o poeta Ted Hughes) e sua irmã (Olwyn) que vem a ser a responsável pelo espólio literário de Plath. Por mais que a autora Janet Malcolm deixe claro que ela faz uma defesa em nome dos irmãos e, creiam, eles precisam. Os Hughes são tratados sempre como coitadinhos, como vítimas de um mundo cruel onde todos só se interessam pela história da poetisa que tira a própria vida, relegando a todos um papel secundário em sua própria vida.
Por este fato permear toda a escrita, e se apresentar como uma batalha sem fim, a leitura tornou-se, para mim, um tanto quanto arrastada. Difícil avançar nas mais de 230 páginas. Janet conta como foi a sua conversa com os autores das biografias e como foi o trâmite deles com o espólio, visto que Ted só se envolve quando o assunto perturba demais os Hughes, as trocas de cartas, farpas e o calvário que deve ter sido tratar deste assunto com essas pessoas. A própria Janet teve certa dificuldade ao tratar com Olwyn, que me parece um tanto caracterizada como vilã de filme B, aquelas chatas que acham que o mundo todo sente inveja do talento, da beleza e do caráter do irmão. Ela própria é um colosso diante da humanidade tão cheia de defeitos e pequenez, com sua mania de tratar o mito de Sylvia melhor do que talvez tratariam a própria. Ainda segundo a análise feita pela jornalista, desde a morte da poetisa, ocorrida em 1963, ainda não houve a publicação de uma única boa biografia sobre ela, nenhuma, todo material que pode ser considerado lixo. Mas os irmãos Hughes, ah… esses são demais.
Enfim, uma leitura que faria de novo? Provavelmente não.

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Sexta pilhada.

Seu cérebro compreende o conceito de férias? Parece que o meu não. Acordo cedo e nem penso em virar para o lado e tentar recuperar o sono. Não, eu levanto e vou colocar o lixo na rua, faço café e alimento os gatos. Abro o computador e vou ler as notícias do dia, vejo uns vídeos no Youtube, ouço umas músicas e vejo umas fotos. Rabisco uns poemas, leio um conto, tento terminar o livro pra lá de chato que estou tentando vencer as últimas 20 páginas.
Já acordo pensando no que irei fazer de almoço, já penso na louça que tenho que lavar e nas coisas que compõem o cotidiano de uma casa. Essa torneira da cozinha que não para de pingar, não importa que já tenha sido visitada por 3 encanadores diferentes, no fim o encanado sou eu. Penso em ver algo na TV, um filme ou uma série, um desenho animado. Quem sabe não assista a algum jornal e encontre uma nova teoria sobre a morte repentina do ministro Teori. Penso em ler um outro livro, ou alguma graphic novel (já que me propus ler mais este ano).
Penso em ir à padaria, ao mercado, ao posto. Talvez ir a alguma praça, ler um pouco, fumar meu cachimbo em paz. Ver a molecada, ver os velhinhos, ver os cães, ver o verde. Ver apenas.
Ir vivendo como posso, ir fazendo aos poucos as coisas, ir fazendo. A minha cabeça não entende que estou de férias e que poderia dormir até mais tarde, que posso relaxar, que posso descansar ao invés de ir enchendo-a mais e mais a cada dia. Por isso o pouco sono, agitado, entrecortado por voltas e mais voltas no colchão. Não nasci para dormir.
Diante de mim, a janela aberta, os fios do varal com chuva secando. Pássaros que voam no dia que nasce. Nuvens cinzas e uma luz que vai abrindo espaço como as palavras que vão ganhando espaço no meu escrever.
O dia começou, o meu começou antes do sol se dar conta. O dia começou e será bom.

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Das séries de vi em janeiro de 17

Tem um tempo enorme que não escrevo aqui, eu sei. Andei muito ocupado curtindo as férias e resolvendo alguns perrengues da vida que não param de aparecer e, aparentemente, não reconhecem o significado de Férias. Mas o que eu ando fazendo realmente? Em alguns dias eu confesso que dormi muito, mas muito mesmo. Acordei com aquelas dores no corpo e um humor não muito condizente com o período em que permaneci em descanso. Nestes dias, confesso, não valeram a pena e deveriam ser anulados pela natureza.
Mas em outros dias tenho feito bastante coisa produtiva: ler, conversar, assistir a séries e filmes, ler mais um pouco, rascunhar algumas coisas e, de vez em quando, um passeio. Claro que o clima tem me servido de desculpa para tudo: “Como pensar em sair debaixo desse sol escaldante?”, “Ah, mas está chovendo, não poderei ir.”, mas que fique bem claro que as desculpas foram dadas para mim mesmo e não iludi ninguém com promessas de que apareceria e não cumpri. Não há nada mais do que eu odeie do que quando fazem isso comigo, ou então marcam um horário e aparecem muito depois. Mas vamos falar do que ando fazendo de bom.

Séries

Desde o ano passado vim recebendo algumas dicas de séries que eu “tinha que assistir”. Fui anotando mas sem a intenção imediata de assistir na época. Agora em janeiro tenho sido entusiasta das maratonas. Assisti apenas 4 séries e gostei de todas, espero que saia logo a segunda temporada delas. Evitei séries que já conhecia, que já tinha assistido um ou outro episódio, dei preferência ao inédito e quis mesmo encontrar algo de bom que pudesse consumir minhas horas e me deixar satisfeito.
A primeira que vi foi a do “Luke Cage”, gostei muito da adaptação feita pela Netflix. O personagem está ali com toda a sua natureza. O elenco é bom, o mote é bom, curti mesmo.
Depois foi “The OA”. Uma história meio confusa, com interpretações não tão primorosas, ponto forte para o elenco bem diversificado. O bom é que quando dei por mim já estava assistindo episódio um atrás do outro, sem parar. Tem um bom final, um gancho para uma possível segunda temporada.
“Stranger Things” era uma das que eu não dava nada, muito badaladinha, mas num dia, de bobeira diante da tela vazia, comecei a assistir e foi uma pancada. Todos os ingredientes do que tinha de melhor nos anos 80, em matéria de filme, está ali. Bem escrito, bem bolado e bem executado.
“Sense8” é bem aquilo que me disseram mesmo. Boa série e capaz de deixar que seu corpo apodreça no sofá, mas até chegar a esse ponto eu demorei e muito. Na verdade isso só aconteceu pelo nono episódio. Poderiam enrolar menos e ir mais pra ação. As histórias se entrecruzam, se alinham, se ajustam e se fundem. Se resolvem também. O fim da primeira temporada me deixou com vontade de ver mais, aprofundar mais. E também de descobrir/relembrar onde foi que vi tudo aquilo.

Bem, por enquanto é só. O próximo texto será sobre as leituras que fiz (estou fazendo) agora em janeiro.

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