Nada funciona corretamente e parece que levo um tempo enorme para realizar as tarefas mais fáceis. Escrever não ó problema, este seria conseguir focar em um único assunto. Claro que tenho algumas dúvidas, claro que tenho algumas certezas, mas isso não tem me ajudado. Só queria que tudo isso passasse rápido.

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“Todos iguais, mas um mais iguais que os outros”

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Há algo que me incomoda no frutífero universo dos canais, blogs, páginas ou outras plataformas literárias. Chega a me cansar, e a mesmo deixar de acompanhar determinadas pessoas, essa onda que é a repetição de informação provocada pela mesmice. Claro que sei da liberdade individual de cada um fazer o que bem entender, mas é  que está tão chato acompanhar as publicações simplesmente porque está  tudo a mesma coisa. Cito como exemplo outubro que é o “Mês do Terror”: chove leitura dos mesmos livros de sempre (Exorcista, algum relato sobre o casal Warren, alguma saga de vampiros, os mesmos Kings, os mesmos Baker, os mesmos dos mesmos. Deve haver outras coisas boas que não são lidas, ou não estão na moda e nem na lista de lançamentos das editoras. Em conversa com um amigo que, também tem um canal voltado a este nicho, comentávamos que, esta novidade da tal da internet ainda é muito recente e estamos mesmo descobrindo como se joga o jogo, ainda definindo regras e parâmetros. Estamos construindo uma estrada que, se continuarmos a pavimentar assim, nos levará à mesmice e pasteurização de costumes e pensamento. O problema não é associar a leitura a uma época determinada, ou a formação de clubes de leitura (virtual ou não) com a intenção de leitura e discussão de uma obra específica, sobre isso sou muito favorável e admiro que consegue participar. Mas é a fala de argumentos para se falar dos livros lidos, é o discurso que cansa, parece que todos gravaram o mesmo roteiro escrito pelo mesmo autor. O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues tem uma frase que eu adoro: “Quando todos pensam igual, ninguém está pensando”. Qual o problema em dizer que não gostou de tal livro, escrita ou tradução? Não somos obrigados a gostar de nada, nem a desgostar. Claro que muitos ainda estão começando a sua vida de leituras e é legal poder partilhar, poder descobrir que há mais pessoas que leem, que curtem, que querem mais e mais. Talvez esses mesmos ainda não tenham descoberto sua voz própria, seu caminho, sua linguagem, seus “sim” e “não”.
O exército de mimizentos enchem os comentários contrários àqueles que falam contra suas modinhas e seus autores tão normais quanto tomate na feira, já li comentários odiosos mesmo, pessoas chamando a outra de burra, afirmando que tal pessoa não sabe ler, que seu autor é o melhor do mundo. Mas, e a individualidade? E o pensamento de cada um?
Leio o que quero, quando quero e levo o tempo que levar. Alguns livros que me chegaram muito badalados, não passou de leitura chata, não vi esse brilho todo que todos defendiam. Tenho a minha história e minha própria bagagem para carregar, ler é mergulhar em si com auxílio.
Se a leitura é uma experiência individual, posto que cada um compreende, ou não, de uma forma íntima, como lemos ou assistimos a tantas análises tão semelhantes, inclusive com o recorrente uso dos mesmos termos. Todos estão lendo os mesmos livros, tendo a mesma experiência e falando as mesmas coisas. Me parece que, esta pasteurização das opiniões, em mim deixa mais com pulga atrás da orelha do que desperta o desejo de leitura, ou de conhecer um novo autor ou estilo. Algumas vezes até tento ler algo depois de alguns anos do boom, nenhuma das vezes foi consciente. Apenas me dei conta, ou na metade final da leitura, ou já no fim.
Não é também que o livro, filme, série, não possa ser tão bom assim como todos dizem. Mas é a fraca argumentação sobre as obras que me incomoda. O uso constante de termos que já se banalizaram pelo uso constante em conversas ou pretensos elogios também me afastam. Nada é top para mim, nada é perfeito. Assim como o que é belo para um, para outro não passa de corriqueiro. O que é leitura obrigatória para outros, seja porque é moda, porque mudaram a capa, porque a lombada tem um detalhe a mais, para outros é apenas um talvez. Não li boa parte dos livros
Que todos estão “resenhando”, nem pretendo ler. A minha leitura é movida pela curiosidade e prazer. Ou então pelo reencontro com alguma história já sabidamente boa para mim. Leio o que quero e quando quero, no meu ritmo e no meu jeito. Não leio para competir com ninguém em quantidade de livros lidos por ano. Se leio bastante em um mês, não quer dizer que no mês seguinte eu leia o mesmo tanto. Depende muito do tempo que tenho livre e de como anda a minha cabeça. Não me importo em voltar algum parágrafo se não compreendi da primeira vez, não me incomoda parar a leitura para digerir melhor o que vi, não me incomoda pensar um pouco mais. Vamos aprende
Aprendendo com o tempo que nosso tempo é único. Não há ordem unida, não é marcha militar, nem desfile, é leitura. É entrega e permissão, é a realização de uma vontade. Ler é fazer amor. Pode até ser rápido, mas tem que ser bom.

*a frase é de autoria de George Orwell e está em seu romance “A Revolução dos Bichos”

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“A mulher calada – Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia” de Janet Malcolm

capa da edição brasileira

capa da edição brasileira

Comecei janeiro lendo um dos gêneros que mais gosto, biografia. Na verdade não é bem uma biografia, mas uma biografia de biografias escritas sobre a poetisa norte-americana Sylvia Plath. Escrito pela jornalista Janet Malcolm e publicado aqui pelo selo Companhia de Bolso da Cia das Letras, o livro pretende demonstrar, através da análise de algumas trabalhos publicados sobre Plath e seu universo íntimo e laboral, como é tênue a linha que separa o trabalho sério de contar a história de alguém e como tratar tudo de uma forma não tão respeitosa, o que é fato real e o que é ficção.
A intenção em demonstrar que parte do processo que envolve a produção de uma obra deste gênero não é navegar em águas tranquilas (trato com familiares, amigos, agentes, detentores de direitos autorais, pessoas que simplesmente acham que tem alguma boa história com o biografado e outras situações), fica claro quando somos apresentados ao ex marido (o poeta Ted Hughes) e sua irmã (Olwyn) que vem a ser a responsável pelo espólio literário de Plath. Por mais que a autora Janet Malcolm deixe claro que ela faz uma defesa em nome dos irmãos e, creiam, eles precisam. Os Hughes são tratados sempre como coitadinhos, como vítimas de um mundo cruel onde todos só se interessam pela história da poetisa que tira a própria vida, relegando a todos um papel secundário em sua própria vida.
Por este fato permear toda a escrita, e se apresentar como uma batalha sem fim, a leitura tornou-se, para mim, um tanto quanto arrastada. Difícil avançar nas mais de 230 páginas. Janet conta como foi a sua conversa com os autores das biografias e como foi o trâmite deles com o espólio, visto que Ted só se envolve quando o assunto perturba demais os Hughes, as trocas de cartas, farpas e o calvário que deve ter sido tratar deste assunto com essas pessoas. A própria Janet teve certa dificuldade ao tratar com Olwyn, que me parece um tanto caracterizada como vilã de filme B, aquelas chatas que acham que o mundo todo sente inveja do talento, da beleza e do caráter do irmão. Ela própria é um colosso diante da humanidade tão cheia de defeitos e pequenez, com sua mania de tratar o mito de Sylvia melhor do que talvez tratariam a própria. Ainda segundo a análise feita pela jornalista, desde a morte da poetisa, ocorrida em 1963, ainda não houve a publicação de uma única boa biografia sobre ela, nenhuma, todo material que pode ser considerado lixo. Mas os irmãos Hughes, ah… esses são demais.
Enfim, uma leitura que faria de novo? Provavelmente não.

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Sexta pilhada.

Seu cérebro compreende o conceito de férias? Parece que o meu não. Acordo cedo e nem penso em virar para o lado e tentar recuperar o sono. Não, eu levanto e vou colocar o lixo na rua, faço café e alimento os gatos. Abro o computador e vou ler as notícias do dia, vejo uns vídeos no Youtube, ouço umas músicas e vejo umas fotos. Rabisco uns poemas, leio um conto, tento terminar o livro pra lá de chato que estou tentando vencer as últimas 20 páginas.
Já acordo pensando no que irei fazer de almoço, já penso na louça que tenho que lavar e nas coisas que compõem o cotidiano de uma casa. Essa torneira da cozinha que não para de pingar, não importa que já tenha sido visitada por 3 encanadores diferentes, no fim o encanado sou eu. Penso em ver algo na TV, um filme ou uma série, um desenho animado. Quem sabe não assista a algum jornal e encontre uma nova teoria sobre a morte repentina do ministro Teori. Penso em ler um outro livro, ou alguma graphic novel (já que me propus ler mais este ano).
Penso em ir à padaria, ao mercado, ao posto. Talvez ir a alguma praça, ler um pouco, fumar meu cachimbo em paz. Ver a molecada, ver os velhinhos, ver os cães, ver o verde. Ver apenas.
Ir vivendo como posso, ir fazendo aos poucos as coisas, ir fazendo. A minha cabeça não entende que estou de férias e que poderia dormir até mais tarde, que posso relaxar, que posso descansar ao invés de ir enchendo-a mais e mais a cada dia. Por isso o pouco sono, agitado, entrecortado por voltas e mais voltas no colchão. Não nasci para dormir.
Diante de mim, a janela aberta, os fios do varal com chuva secando. Pássaros que voam no dia que nasce. Nuvens cinzas e uma luz que vai abrindo espaço como as palavras que vão ganhando espaço no meu escrever.
O dia começou, o meu começou antes do sol se dar conta. O dia começou e será bom.

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Das séries de vi em janeiro de 17

Tem um tempo enorme que não escrevo aqui, eu sei. Andei muito ocupado curtindo as férias e resolvendo alguns perrengues da vida que não param de aparecer e, aparentemente, não reconhecem o significado de Férias. Mas o que eu ando fazendo realmente? Em alguns dias eu confesso que dormi muito, mas muito mesmo. Acordei com aquelas dores no corpo e um humor não muito condizente com o período em que permaneci em descanso. Nestes dias, confesso, não valeram a pena e deveriam ser anulados pela natureza.
Mas em outros dias tenho feito bastante coisa produtiva: ler, conversar, assistir a séries e filmes, ler mais um pouco, rascunhar algumas coisas e, de vez em quando, um passeio. Claro que o clima tem me servido de desculpa para tudo: “Como pensar em sair debaixo desse sol escaldante?”, “Ah, mas está chovendo, não poderei ir.”, mas que fique bem claro que as desculpas foram dadas para mim mesmo e não iludi ninguém com promessas de que apareceria e não cumpri. Não há nada mais do que eu odeie do que quando fazem isso comigo, ou então marcam um horário e aparecem muito depois. Mas vamos falar do que ando fazendo de bom.

Séries

Desde o ano passado vim recebendo algumas dicas de séries que eu “tinha que assistir”. Fui anotando mas sem a intenção imediata de assistir na época. Agora em janeiro tenho sido entusiasta das maratonas. Assisti apenas 4 séries e gostei de todas, espero que saia logo a segunda temporada delas. Evitei séries que já conhecia, que já tinha assistido um ou outro episódio, dei preferência ao inédito e quis mesmo encontrar algo de bom que pudesse consumir minhas horas e me deixar satisfeito.
A primeira que vi foi a do “Luke Cage”, gostei muito da adaptação feita pela Netflix. O personagem está ali com toda a sua natureza. O elenco é bom, o mote é bom, curti mesmo.
Depois foi “The OA”. Uma história meio confusa, com interpretações não tão primorosas, ponto forte para o elenco bem diversificado. O bom é que quando dei por mim já estava assistindo episódio um atrás do outro, sem parar. Tem um bom final, um gancho para uma possível segunda temporada.
“Stranger Things” era uma das que eu não dava nada, muito badaladinha, mas num dia, de bobeira diante da tela vazia, comecei a assistir e foi uma pancada. Todos os ingredientes do que tinha de melhor nos anos 80, em matéria de filme, está ali. Bem escrito, bem bolado e bem executado.
“Sense8” é bem aquilo que me disseram mesmo. Boa série e capaz de deixar que seu corpo apodreça no sofá, mas até chegar a esse ponto eu demorei e muito. Na verdade isso só aconteceu pelo nono episódio. Poderiam enrolar menos e ir mais pra ação. As histórias se entrecruzam, se alinham, se ajustam e se fundem. Se resolvem também. O fim da primeira temporada me deixou com vontade de ver mais, aprofundar mais. E também de descobrir/relembrar onde foi que vi tudo aquilo.

Bem, por enquanto é só. O próximo texto será sobre as leituras que fiz (estou fazendo) agora em janeiro.

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MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA – ANTES DO TOQUE DE RECOLHER

Faz de conta que não é com você. Quando o sacrifício for inevitável. Quando a calçada não te acolher mais com lisonjas, blues, e beijos no pescoço. Quando tudo parecer uma questão de tempo, fica ali com aquela cara de trouxa incorrigível fazendo de conta que não é com você. É um jeito confortável de reduzir sua cota de angustias. Uma tática de guerrilha silenciosa. E quando o ataque for tão forte que não der pra você simplesmente fazer de conta que não é com você, então meneie a cabeça obsequiosamente, sempre em movimentos afirmativos. Confere lá na despensa se os suprimentos são suficientes para essa trégua consentida. Diferencie sempre ataque de reprimenda gentil. Faz de conta que não é com você. E quando a tensão entrar pela janela na forma de um vento gelado, respira fundo e deixe sua memória afetiva te levar pra um cenário paradisíaco de palmeiras e gaivotas. Faz de conta que não é com você. Assobia baixinho um hino qualquer do filme Hair. Se sinta importante e quase orgulhoso por ter aprendido a negociar. Não com o mundo que ninguém é tão fodão assim. Eu tô falando de negociar contigo mesmo. Afinal você tá malaco de saber que o seu pior inimigo é você mesmo. Não culpe ninguém por sua perda de controle. Se faça acompanhar por sua escolta particular de truquezinhos manjados. Faz de conta que não é com você. Entenda que tudo é temporário. Quando sua garantia de vida apitar na curva, continua fazendo de conta que não é com você. Quando chegar a hora de cumprir as tais promessas. Quando os avisos do correio empilharem assustadoramente na sua porta. Quando a campainha intermitente soar perturbadora. Quando o cachorro uivar de frio. Quando te chacoalharem com as tais questões recorrentes. Aí você tem mais ainda que permanecer firme e fazer de conta que não é com você. Quando você se sentir totalmente desprotegido com seu coração batendo em estéreo, um alvo escandaloso pintado na sua cabeça. Quando você não tiver mais pra onde fugir. E quando o inferno libertar seus lacaios mais fiéis. Quando chutarem sua alma. Quando as bombas de gás entrarem impetuosas quebrando sua vidraça. Quando não houver mais como ficar por aqui, você vai perceber que sempre teve tudo a ver com você. Talvez seja tarde demais.

(Mário Bortolotto)

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Viagens, apertos e sabedoria

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Estou dando aula em outra cidade, o que me obriga a, todo dia, pegar ônibus para ir e voltar do trabalho. O trajeto é feito em circular, nunca o mesmo carro, com seus bancos pouco confortáveis e catracas (ou roletas) que me impedem o trânsito livre dentro da condução, além da chance de escolher um assento melhor em que possa acomodar meu corpanzil. Viajo sentado num dos bancos da frente, daqueles preferenciais para idosos, já que nos carros em que vou não possuem assentos para obesos (gordo mesmo), estranhamente, nos carros da volta (eles vêm de Prudente com destino à Marília. Será que os passageiros que partem de Tupã com destino à Araçatuba não merecem a mesma consideração pela empresa?). Mas esse é outro assunto, agora quero falar da viagem.  O tempo de estrada é relativamente pouco, 40 a 45 minutos. A paisagem é sempre a mesma com seus pastos, alguns bois, cidades e distritos, postos de gasolinas, prostitutas torrando ao sol, barracas de alimentos, cercas, posses, posses e posses.
Estranhamente não há regularidade de passageiros, ao menos não reconheci ninguém no deslocamento diário, nem mesmo os motoristas, já não existem cobradores, a função recai sobre os motoristas como se já não houvessem preocupações suficientes além de cobrar o valor da passagem, não errar o troco, além de chegar sempre no horário. É muita coisa para uma pessoa só. Essa responsabilidade que paira nos ombros desses trabalhadores pode ser muito boa para os donos da empresa, mas para quem exerce ou  para quem se coloca sob a responsabilidade dessas pessoas sempre fica com um pé atrás de que algo possa dar errado. Ainda bem que sempre erro e posso assim continuar a viajar, ver as paisagens, dar aula, tomar café e tudo o mais.
Nestes quarenta e tantos minutos que levo no deslocar para lá, quase sempre tenho a companhia de algum senhor com mais idade. Desses bem senhores, com muitos amanheceres em sua história, em geral são simpáticos e atenciosos. Falam mansamente e sorriem ao fim de seus comentários, creio que finalmente conseguiram audiência. E eu os ouço mesmo, não porque não posso fazer mais nada, sempre há a possibilidade mal educada do fone de ouvido, ou então o de sacar da mochila o livro que leio e fazer imperar um silêncio chato. Prefiro os papos. Gosto de saber o que pensam, suas opiniões e gostos. Suas glórias e derrotas. Suas certezas e incertezas sobre o amanhã e nosso país como anda. E me olham curiosos, me perguntam o que faço, quem sou, se faço regime ou se penso em fazer, se já quis fazer a operação bariátrica.
Me contam seus dramas, seus sonhos, seus desejos passados. São sinceros em suas palavras e sorrisos. Gentis como seriam os bons velhinhos das histórias. Não importa muito o desconforto de dividir assento com um gigante barbudo e de cara mal humorada. Eles não ligam e despejam suas sabedorias, bastam a eles alguém com vontade de ouvir. Claro que tem dias em que não habita em mim essa paciência toda, mas é só relaxar e tentar preservar algo da conversa. Perguntam pouco e falam sem medo, falam pelos cotovelos, falam mais do que o homem da cobra. Mas tenho meus quarenta e tantos minutos para aprender um pouco mais sobre a difícil arte de deixar o tempo passar e estar vivo. Que passe numa boa conversa então, o aperto e desconforto dos bancos, a lógica capitalista do dono da empresa, o funcionário incumbido de exercer diversas funções e receber por uma, as vacas no pasto e eu mesmo somos apenas pano de fundo para que as histórias aconteçam.

 

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“O TEATRO QUE CANSA” por Mário Bortolotto

O texto a seguir foi publicado no Facebook do dramaturgo Mário Bortolotto. Gosto de ler o que ele publica porque me faz pensar e, creio eu, temos alguns momentos de pensamentos próximos. Estive no Cemitério de Automóveis há alguns anos para a Noite Beat em comemoração aos 30 anos de lançamento da tradução feita por Claudio Willer do poema “Uivo” do Allen Ginsberg e foi uma noite feliz para mim. Ver tanta gente que sempre admirei no mesmo lugar e fazendo uma coisa que, para mim, é sagrada: celebrar.

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Mário Bortolotto e eu na Noite Beat no Teatro Cemitério de Automóveis.

Mas o texto não fala desta noite, fala de teatro, de como pode ser um saco e de como é revigorante ao mesmo tempo.

O TEATRO QUE CANSA
Este texto é apenas um desabafo de um dramaturgo e homem de teatro que está sempre cansado e repensando o ofício que escolheu. Não acho que interessa a quase ninguém, mas como eu sou o tipo de cara que escreve compulsivamente quando senta na frente do computador, não há como não escrever algo do tipo e publicar por aqui para quem tiver o mínimo interesse .
Venho brigando com o teatro há muito tempo. Devo muito a ele. Tenho mais de cinquenta textos escritos. Outras trocentas peças que dirigi e mais um porrilhão em que trabalhei como ator. Todas valeram a pena. Umas mais e outras menos. Muitas alegrias e muitas frustrações. Trabalhei freneticamente e exaustivamente até certo período da minha vida. Lembro sempre da Mostra de 2002 no Centro Cultural São Paulo que fizemos em três meses 26 peças com 79 atores sem nenhum centavo de patrocínio. Eu tava com todo o gás. Mas o teatro vai cansando. Às vezes eu me sinto um fantasma fazendo teatro. Confesso que tenho vontade de ficar em casa só escrevendo poesia ou meus romances e deixar o teatro pra lá. Como eu já escrevi por aqui, não preciso de muito dinheiro pra viver. Não tenho dívidas pessoais. Não sou ambicioso do tipo que precisa ter um carro do ano ou uma fazenda ou qualquer outro desses bens que muita gente almeja ter. Tenho um lugar onde eu posso fechar a porta e ficar lendo e escrevendo. E isso na verdade me basta. Lancei uma porrada de livros pela Editora Atrito que é a editora da minha ex-mulher e grande amiga Christine Vianna. Mas é uma editora pequena sem poder de divulgação ou distribuição. Mesmo assim todos os livros estão praticamente esgotados. É claro que todos eles (com exceção do meu primeiro romance “Mamãe não voltou do Supermercado”) tiveram apenas uma primeira edição, mas estão todos esgotados. E lancei alguns outros livros por outras editoras pequenas. Por exemplo, lancei o “DJ” que é um livro de contos pela Barcarolla, mas logo depois do lançamento a editora faliu e com isso não houve uma continuidade no processo de divulgação do livro. Lancei também o “Bagana na Chuva” pela “Ciência do Acidente”, mas logo depois a editora também faliu (sou o rei de falir editoras rs). Recentemente lancei o “Esse tal de amor e outros sentimentos cruéis” pela Reformatório que é uma editora também pequena de um batalhador incansável que é o Marcelo Nocelli. O livro teve várias resenhas positivas mesmo sem o poder de divulgação de uma editora grande e eu fiquei bastante satisfeito. Então eu sempre penso em ficar apenas escrevendo e deixar o resto pra lá. Teve um período que eu chamei de “anos do furacão” que eu fiquei quatro anos só escrevendo sem nenhum objetivo real (eu sequer pensava em publicar). Apenas chegava bêbado em casa e escrevia compulsivamente e publicava grande parte no meu blog. E tenho total consciência do grande número de pessoas que ficaram conhecendo a minha escrita graças ao meu blog em que escrevia invariavelmente embriagado. Foram quatro anos que eu não queria mais nada da vida. Escrevia, bebia e depois voltava a escrever e beber. Esses quatro anos estão documentados no livro “Os anos do Furacão”. Eu não queria escrever para teatro. Não me sentia estimulado. Lembro que nesse período escrevi apenas “Uma pilha de pratos na cozinha” que é um dos meus melhores textos (na minha bêbada opinião). Mas os jurados do Prêmio Shell daquele ano tiveram a manha de não indicar nenhum texto no semestre alegando que não havia estreado nenhum texto com nível suficiente para ser indicado. Eu lembro até que o jurado que falou isso era um figurinista rs. Esse fato fez com que ficasse ainda mais frustrado com a profissão que eu havia escolhido. “Uma pilha de pratos na cozinha” não era apenas um ótimo texto. Era uma peça muito bem dirigida com ótimos atores. Achei uma injustiça e resolvi parar de escrever pra teatro. Então apenas bebia mais e escrevia qualquer outra coisa, menos teatro. E vivi dessa maneira tortuosa até levar os quatro tiros no bar e ser obrigado a repensar a minha vida. E o mais irônico é que essa merda dos tiros aconteceu justamente quando havia acabado de fazer uma direção que tinha me deixado bastante satisfeito e que tinha insuflado em mim uma sobrevida teatral que tinha sido a montagem de “Brutal” que estava lotando sessões à meia-noite no Parlapatões. Mas por ter sobrevivido, me senti obrigado a retomar a minha vida de onde já havia parado há muito tempo. Então quando voltei, escrevi “Música para ninar dinossauros” (que também considero um dos meus melhores textos) que estreei na sequencia enquanto trabalhava como ator em uma das peças mais prazerosas que fiz que foi o “Êxtase” do Mike Leigh. Foi um bom renascimento. Depois fui perdendo a vontade de novo. Em 2012 ainda escrevi “O inferno em mim” que considero ao lado de “Homens, Santos e Desertores” os meus dois melhores textos, além de ser uma peça com uma direção irrepreensível dentro do que eu almejo como diretor. Mas foi outra peça totalmente ignorada. Não houve qualquer avaliação crítica do espetáculo. Parece que a peça não existiu. E eu fui me sentindo um fantasma de novo. Em 2013 escrevi a “Trilogia da Amizade” que são três textos que gosto muito (“Borrasca”, “A pior das intenções” e “Whisky e Hambúrguer”) e que também foram completamente ignoradas. E o teatro foi me cansando mais. E toda a dificuldade pra conseguir manter o nosso teatro funcionando e todos os perrengues foram me afastando ainda mais. Então quando sento na frente do computador, penso em escrever qualquer coisa (um poema, letra de música, um post no facebook, um trecho do meu romance, um e-mail pra um amigo) menos teatro, infelizmente. Acho cada vez mais inútil. E devo ser o dramaturgo depois do Nelson Rodrigues e do Plinio Marcos com mais textos adaptados para o cinema. Talvez o Marcelo Paiva também tenha. Mas até agora foram oito (sete longas e um curta). Três deles não me satisfazem e não sinto que são adaptações que conseguiram captar o espírito do meu trabalho, mas estão lá, estão produzidos e realizados e tá tudo certo. Mas os outros cinco são produções das quais eu me orgulho de ver adaptadas. Ainda não são o que eu acredito que posso conseguir em cinema, mas já são bastante próximas do que almejo. Como diretor realizei duas montagens que também gosto muito que são “Killer Joe” e “O Canal” de dois autores americanos. As peças tiveram ótima avaliação crítica, mas mesmo assim não conseguimos levar as peças para nenhum outro lugar a não ser apresentá-las em nosso teatro (que sempre está em vias de fechar). Todos os projetos que mandamos são recusados. Aí fico me perguntando: “Pq eu continuo a fazer teatro? Eu não preciso disso. Tenho que ficar em casa escrevendo meu romance, publicar por uma grande editora e ficar por aí participando de feiras de livros. A vida vai ser bem mais gratificante e divertida”. Mas aí acontece de eu cair na besteira de resolver dirigir um pequeno texto (no tamanho) como o do Bruno Goularte (“Morte entre amigos”) ontem no “Terça em Cena” e chamar três atores bacanas para interpretá-lo. E ver que tudo funciona como eu queria (não me interessa muito se as pessoas estão gostando ou entendendo o que quero fazer – essa não é uma atitude esnobe minha – simplesmente faço o que acredito independente da aprovação das pessoas e acho que todo artista deveria trabalhar assim – é claro que me frustra quando não conseguem reconhecer os méritos do trabalho como já disse aí em cima, mas o mais importante sempre vai ser o meu crivo estético e artístico – não trabalho com um medidor de ibope ao lado da minha mesa) e os atores obedecem a partitura da direção e consigo realizar a contento tudo o que imaginei na minha cabeça. E vejo as pausas, e respirações e intenções e detalhes e inserções sonoras e quedas de luz todas exatas. Então nesses momentos o prazer se renova e é nesses momentos e quase apenas nesses momentos é que entendo pq continuo fazendo teatro, apesar de todas as dificuldades e os perrengues e todos os contras. O teatro é capaz desses milagres. De pegar um sujeito cansado e fazer com que ele se renove com uma injeção de adrenalina. Não sei por quanto tempo, mas há dias que eu me sinto assim. E nesses dias eu agradeço por ainda amar muito esse negócio tão desprezado e que eu venho fazendo há quase 40 anos. Posso ser um ingênuo imbecil, mas nessas horas ainda percebo que tá valendo. Que o teatro sobreviva sempre, independente de mim ou de qualquer outro. Ele é maior que todos nós.
Link da publicação original https://www.facebook.com/mario.bortolottodois/posts/1052049741549512?pnref=story

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Vídeo novo no canal

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Parceria Editora Hedra – #01

Semana começou poética para mim. Recebi hoje pelos Correios o primeiro livro da parceria com a Editora Hedra, livro nacional e de poemas. Boa pedida para o início de uma história. O que escrevem os que escrevem hoje em dia? Importa a idade, o sexo, o time, o credo?Para mim não, o que me basta são os versos. O que chegou foi “Habitar” de autoria de André Fernandes. Sobre o livro e o autor nada posso falar, visto que ainda não os li, mas deixo o link da pág da Editora Hedra para que conheçam e talvez façam como eu, escolham conhecer o novo, ou nem tão novo assim (foi publicado em 2010), livro de André. https://hedra.com.br/livros/habitar

Escolhi para estabelecer a parceria o nicho da literatura nacional. Fiz de caso pensado para conhecer o que andam escrevendo os patrícios e por crer, também, que temos uma boa safra de autores brasileiros que merecem um espaço maior em nossas leituras, , mais do que em nossas estantes. Quero conhecer o que andam publicando também as editoras nacionais e esse desejo tem me levado a bons portos.
Tem gente que não lê nada do que é nacional, diz que ainda não temos a mesma maestria de que outras nações, outros povos são melhores e suas histórias são encantadoras. Não sabem que tal atitude fecha uma tremenda chance de nos conhecermos melhor como nação, nos vermos em personagens mais próximos de nossa realidade, em dores mais sonoras com os nossos “ais”. Sempre tivemos ótimos autores, ótimas histórias e ótimos livros. A dosagem é o segredo da felicidade do leitor. Quem mergulha somente em um gênero acaba perdendo a chance de se maravilhar em outras possibilidades e temos uma gama enorme de caminhos para trilhar.
Apostemos em nossa literatura e seus diversos gêneros, uma hora nos encontramos.

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