Arquivo da categoria: Diários do Caminhante Noturno

Meu avô tinha um violão

Meu avô tocava violão.
Quando me lembro dele
a memória já vem
com trilha sonora.
Quando não era ele quem
o tocava,
era meu pai, minha tia,
depois minha prima e meu primo.
O violão era um ser vivo,
em minha mente,
conversava conosco através das notas,
o violão era um primo, uma tia, meu velho
o instrumento era eu em minha infância,
adolescência e juventude.
A noite ficava mágica quando havia
o som do dedilhado,
Samba-canção, bossa nova, guarânias.
tudo é saudade agora
as notas do violão,
como as palavras de minha caneta
ficarão na lembrança
na vida
marcarão a ausência,
soará como saudade.
Será o registro de vidas
que já findaram,
como uma antiga canção
que embolava o sonho
as noites, a vida.

Sobre gosto e qualidade.

Não me lembro ao certo quem estava comentando sobre uma visita que fez à Nova Iorque e quis experimentar a famosa pizza que é comida por lá. A pessoa entrou numa dessas pizzarias que vemos nos filmes e pediu uma fatia de cinco doletas, olhou o aspecto nada convidativo do que havia comprado e deu uma mordida. Não gostou, achou o gosto ruim, ficou chateado com a experiência e se foi terminar o dia pela cidade. Ao voltar para o hotel em que estava, comentou com um amigo o fato e a “má sorte” que teve. O amigo ouviu toda a história e respondeu calmamente: “Existem realmente pizzas muito boas por aqui, mas uma pizza de cinco dólares jamais terá o mesmo preparo e ingredientes de uma que custaria dez dólares.”
Em tudo na vida é assim, há o bom pelo preço justo e há o ruim. Comparo isso ao café, eu posso tomar três xícaras de um bom preparado com o dinheiro que compraria uma embalagem de 250 gr que me proporcionaria muito mais cafés que não me dariam o mesmo prazer. Já comprei cafés caros que não gostei, que foram, para o meu paladar, ruins. Já comi pratos lindíssimos que não me apeteceram, eram ruins para mim.
Os produtos são assim, há aqueles com boas matérias-primas e que resultam num ótimo preparo, assim como existem os com boas matérias-primas que são feitas de uma forma displicente e que acaba por arruinar o resultado e a qualidade de sua origem. Sabemos que isso de que “não há produto ruim” é desculpa de vendedor que quer enrolar o comprador.
No fim, o que determina para cada indivíduo a real qualidade do produto é o gosto de cada um. Isso ocorre com os cachimbos também. Alguns preferem de briar acima de qualquer outra madeira, pouco se atentando para a furação, o fluxo da fumada que ele permite, a qualidade da piteira, o peso do material, o acabamento e mais uma infinidade de pequenos detalhes que possam existir. O fato de ter sido feito em briar, não é sinônimo de qualidade. Acreditar que o material é superior, independente do processo pelo qual ele passa é fácil. Mas garanto que se me entregarem um pedaço de briar eu o estrago em menos de cinco minutos de uma forma que não tenha salvação. Se entregarem um pedaço do mesmo material a uma pessoa experiente, como o Mauro Bazzanella, daí sim haverá possibilidade de sair um cachimbo bonito e aceitável. Ele trabalha com isso há anos, eu nunca tentei. O que posso analisar, como cliente consumidor do produto por ele fabricado, são os aspectos de funcionalidade (isso é imutável, ou serve ou não serve), e os aspectos artísticos que possam me agradar ou não. O gosto é subjetivo, mas a qualidade não.
Não é preciso ser doutor em nada para ter um gosto próprio, não é preciso nada além da experimentação e da honestidade consigo mesmo. Dizer que não gosta de algo é ofensivo? Nem um pouco, Dizer que algo não combinou com seu paladar é errado? Jamais. Nos alimentamos, nos nutrimos, bebemos, fomos criados diferentes uns dos outros e temos uma informação de mundo que é única, pois só depende de nós. Há aqueles que não gostam e nunca provaram, há os que provaram e gostam, há os que dizem que não existe tabaco ruim, há aqueles que acham muito, acham por todos inclusive.
Claro que existe tabaco ruim, o tabaco que me queima a língua por conta da química, por conta do preparo, da forma acondicionada. Tabaco em corda com folhas de bananeira no meio, com terra, com uréia, com açúcar, com esterco, de folhas de determinadas partes e curadas de forma que as estraga não podem ser consideradas boas. Não podem ser consideradas um produto pronto para o consumo. Tem gente que não gosta de perique, de misturas balcânicas, de burley, de arapiraca, de virgínias, de misturas inglesas, gente que não gosta de latakia, tem gente que não gosta de verdade.
Espero que encontrem um bom tabaco, bem preparado, bem acondicionado, bem curado, bem tratado, bem colhido, bem plantado e que tenha um bom preço. E espero, também que não falte em seus fornilhos.

o tempo passa.

Amor
Seu corpo
é sua história,
suas marcas, seus detalhes,
tudo está no lugar certo,
tudo valoriza.
É o templo da divindade
que você é.
Pelos, peitos, estrias,
gordurinhas,
Pés, manchinhas,
o que tiver em seu livro
é o sinal de que você viveu.
Amor,
relaxe,
o tempo te ama.
Vai te esculpindo como obra
vai te cuidando como sabe.
Teu corpo é o pouso
para as ideias que
te fazem única.

Sobre tabacos, ações e amizade.

Caixa n°06 com o novo Tabaco Dalberto

Acostumo-se a chamar qualquer grupo de cachimbeiros como confraria. Mas, de fato, de confraria há bem pouco ou quase nada. Claro que é válido reunir um grupo de pessoas em torno do mesmo assunto, ainda mais nos tempos que estamos vivendo. Agora, ir além do bate papo é quase nada mesmo.
Tive a honra de ter encontrado um pequeno, mas significativo, grupo de pessoas que formam, sim, uma confraria. Mesmo que não tenham adotado o nome para si, é uma confraria no sentido amplo da significância do termo. A mão estendida à amizade sem afetação e esnobismo idiotizante. A discussão que busca um norte e o passo dado para a realização de um projeto em conjunto em prol de algo além do próprio umbigo e fornilho.
A ideia de Gustavo Dalberto em auxiliar um amigo dele de uma forma que fosse valorosa foi a gênese de um produto riquíssimo de importância e sabor.
As cinquenta caixas de madeira que o amigo confeccionou serviu de berço para o isqueiro, vindo do Luciano (Mestre das Cordas Tabacaria), um canivete pica fumo da Tramontina, um cachimbo MB numerado feito por Marcinei Bazzanella e o já famoso tabaco em corda de Jaguari com folhas de figo, que eram um produto que os avôs de Gustavo faziam para consumo próprio.
O tabaco ressurgiu em um projeto da Família Dalberto no início do ano e leva o nome de Luiz Antenor que são os nomes dos avôs que inspiraram a pequena produção. Poderiam continuar cada um vendendo seu produto separadamente, obteriam resultado também, mas seria apenas mais uma história tão comum.
Mas quando um amigo precisa e há a possibilidade de se juntar em auxílio, não importa o tamanho de tal ideia, torna-se gigante diante do que representa.
A caixa número 06 repousa aqui comigo. Fiquei feliz com a chance de participar, de alguma forma, e poder reconhecer a verdade de uma pequena confraria que vai além da fumaça e do papear.
Fica um marco da ação de todos porque, sem a ajuda de quem as fez e de quem as adquiriu não haveria não haveria diferença, seria apenas o mais do mesmo.
Agora é abrir o tabaco, que vem no formato de uma bananinha, sentir o aroma, picar com o canivete, encher o fornilho novo, acender e aproveitar o resultado de uma ação conjunta de amigos. A vida pede mesmo uma pausa para refletir, aproveitar e se lembrar de quando tudo tinha um outro sabor. Seja bem vindo Luiz Antenor, vida longa à confraria brasileira.

entreVISTA do Artista – Jim Duran

Carlos Freitas

Seguindo com nossos bate-papos, hoje é dia de trazer Jim Duran e suas reflexões a cerca desse mundo de cabeça para baixo. Esta é a terceira entrevista de uma série de conversas com diferentes personalidades do mundo das artes. O projeto “entreVISTA do Artista” é uma iniciativa de trazer à tona as impressões e reflexões de diversos artistas sobre esse nosso momento atual, onde a Pandemia Mundial de COVID-19 sacode o planeta, as relações sociais, políticas e econômicas, além de transformar o modo como vivemos e nos relacionamos. Eles são escritores, artistas plásticos, editores, quadrinistas e ilustradores, todos com variados e interessantes pontos de vista sobre tudo o que está acontecendo no momento.

Jim VISTO por Jim...

Jim Duran é escritor, ator, diretor de teatro e podcaster sem paciência. Começou a publicar em 1992 e desde lá já passou pela imprensa escrita e televisiva. Já participou de audiovisual…

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Sobre vira-latas, Tabacos e Cachimbos.

Cachimbo e folhas de tabaco tipo Burley.

O cachimbo é leal companhia no fim de um dia exaustivo, é o respiro, quando tudo desaparece sumindo na fumaça que sobe do fornilho. Fumar, lentamente, apreciando em paz o instante, pensando e repensando na vida, sentindo um conforto na alma a cada nova puxada de fumaça. Quando o tabaco que enche o fornilho brilha forte e vermelho, o tempo some do relógio e tudo se resume àquele momento em que estamos vivos.
Fumar cachimbo é um ritual simples, embora, alguns, gostem de encher de salamaleques e não me toques os seus fornilhos, a verdade é que é um exercício simples de contemplação e busca de si mesmo. O cachimbo é extensão de nosso ser, uma companhia a mais na hora de uma boa conversa, bebericando algo ou simplesmente fazendo a fumaça subir.
Nelson Rodrigues, em uma de suas crônicas referente ao futebol, já alertou para o complexo de vira-latas que determinados setores da nação tem, cria e exalta. O produto vindo de fora das fronteiras nacionais causa um frisson, um tesão danado em algumas pessoas. O fato do exemplo rodriguiano poder ser usado em diversos setores de nossa sociedade só reforça a possibilidade de ser. Mas, voltemos ao fornilho que queima.
O Brasil, país lindo de natureza exuberante, de belas árvores e de possibilidades ilimitadas seria capaz de produzir bons cachimbos à exemplo do que acontece com alguns países e determinados artesãos pelo globo afora? A resposta, nesse sentido de natureza e artesãos é: sim, podemos. A falha está no público consumidor que sente certa preguiça de experimentar tais possibilidades? Talvez sim. Precisamos quebrar certas barreiras culturais e olhar com mais carinho e respeito para nossas possibilidades.
Claro que, nesses meus vinte e sete anos de fornilho cheio, também eu adquiri alguns importados, deslumbrado mesmo com as histórias que ouvia e em um certo status da posse. Em tempos remotos de redes sociais já defasadas, costumava trocar muito com algumas pessoas sobre a nobre arte, eram conversas que, confesso, me sentia mais perdido do que participante. Sempre correndo para alcançar um podium que não era meu. Demorei anos para me tocar disso e, talvez, deixar essas conversas para trás não me tenha sido tão difícil.
Fiquei anos e anos fumando sozinho, sem ter o prazer da troca, sem ter com quem conversar de forma tranquila, sem me sentir apequenado por uma simples questão de que não poderia dispender mais do que dispunha para, afinal de contas, saciar um engano. Ouvia muito que “cachimbar era uma arte cara”, por isso mesmo para poucos. Nunca fui ou quis ser parte de elite alguma. Por isso, ficar no meu canto com meus livros e cachimbos com preços honestos e boa qualidade (alguns mesmo de excelente qualidade) para caminhar atrás de quem quer que fosse. Deixo claro que, nem todas as pessoas daquele círculo eram esnobes ou queriam aparecer, tanto que possuo contato com alguns deles ainda hoje, mas a maioria se foi. Não digo também que, os que podiam, estavam errados em gastar seu dinheiro com o produto que quisessem, afinal, apesar de nobre, a arte da cachimbaria é simples e possível à todos e, daí eu reconheço essa nobreza, a possibilidade de abarcar num mesmo grupo desde o rico empresário até o capiau no meio do mato, feliz em sua lida diária e sustentando nossas riquezas.
Recentemente tenho encontrado pessoas mais abertas à conversa que apostam na qualidade do produto nacional. Ótimos artesãos, desde os mais antigos até os que começaram há pouco tempo, vem solidificando o mercado nacional com bons cachimbos, belas peças e de ótima fumada além do ótimo custo benefício. Se acham que não estamos assim tão bem representados, enganam-se em seus fornilhos importados. Cito, da minha coleção, um Montana Churchwarden, dois Marcinei Bazzanella que estão constantemente em uso por aqui. Em breve chega mais e quero conhecer mais artesãos e conhecer seu trabalho, seus produtos.

Modelos Chubby e Oom Paul feitos por Marcinei Bazzanella

Meu pensamento é que, se temos aqui bons artesãos, com nos materiais e peças de beleza sem igual, porque não investimos e confiamos nesses produtos? Porque investirmos no importado? Ao apoiarmos o produto local, fortalecemos o mercado e ficamos forte, temos melhores condições de produção, comercialização e distribuição. Claro que há também a possibilidade de pagarmos um preço justo, honesto e cabível dentro de nossa realidade atual e, ouso dizer, vindoura. Fora a facilidade de poder tratar, muitas vezes, diretamente com o artesão, dar um retorno sobre o trabalho que ele executa, tirar dúvidas, apontar possíveis melhorias. Além de sermos, também, incentivador para que ele possa desenvolver sua arte de forma fortalecida e sabendo que é respeitado pelo seu público alvo. Todos ganhamos com a melhora da cadeia produtiva. Aos que nunca pensaram em adquirir um modelo nacional, convido que faça, não irá se arrepender em ter junto aos seus melhores cachimbos uma peça nacional.

Modelo Oom Paul feito por Marcinei Bazzanella



Sobre tabacos.

Assim como o cachimbo, o tabaco nacional tem sido boa companhia. Descobrir uma gama de sabores, aromas e força tem sido exercício diário a que tenho me dedicado de alma e paixão, sobretudo os tabacos em corda. Aqui também cabe uma confissão: nunca tinha tido coragem de experimentar o tabaco em corda. Sempre senti o cheiro forte e isso me afastava da possibilidade. No começo do ano fui à uma tabacaria no Mercado Municipal para ver se encontrava um tabaco que tinha fumado anos atrás, também nacional, e tinha uma lembrança agradável da fumada. Neste dia resolvi comprar também um pouco de tabaco em corda para experimentar.
Lá tinham três grandes recipientes com tabaco já preparado para enrolar em cigarro, comprei cem gramas de tabaco fraco e cem gramas do tabaco com força média, além de um outro tanto de virgínia puro. Em casa, com calma e um copo de água por perto, pude experimentar os dois, para mim, novos tipos de tabaco. Deixei o de força fraco respirando um pouco antes de encher meio fornilho para o teste. Este não me pareceu tão ruim quanto supunha que pudesse ser, me foi agradável mesmo ter feito o teste com ele puro, fumei um fornilho e meio dividido em diferentes momentos do dia. O de força média ficou para o dia seguinte e, dele, não fumei mais do que um fornilho, guardei-o para outras experiências. Fiz, depois, uma mistura do fraco com o virgínia puro, fumei por alguns dias. Fui me acostumando com a fumada e a complexidade da experiência. Aproveitei muito e fiquei feliz em ter me proposto esta ruptura de um preconceito que tinha em relação ao produto. Sempre fumei tabaco nacional, mas confesso que tinha essa fraqueza em não me permitir travar conhecimento com o fumo em cordas, talvez por uma ideia errada que o ligava somente a uma realidade que não era a minha, uma vida no campo, de trabalho em lavoura, uma ideia completamente equivocada, um complexo de Jofre que carregava em mim. Ledo engano em que, eu mesmo, fui o maior prejudicado. Não digo que, quem não se arrisca neste caminho está errado, cada um sabe o que coloca em seu fornilho, mas podem estar perdendo em prazer de uma forma descomunal, como eu mesmo perdi por décadas.
Novamente as conversas abertas com esse grupo novo descobri um tabaco que me é perfeito em questão de força, equilíbrio, sabor e prazer.   Uma corda feita com tabaco Jaguari produzido pela família Dalberto lá no Rio Grande do Sul. Tratei com o Gustavo a compra de um pedaço desse produto, além de um tanto de tabaco Burle ainda em folha e as expectativas, que eram alta, pelo tanto de pessoas diferentes que indicavam o tabaco, não fez juz ao produto. Nada que foi dito pode ser tão bom quanto a fumada do fornilho com o Tabaco Dalberto.

Folhas de Burley e uma bananinha do Tabacos Dalberto


Grata surpresa desde a abertura da “bananinha” quem vem embalado o tabaco, parecendo um tanto com uma bala baiana esticada. O aroma desprendido da corda, o brilho da capa já me dera uma vontade imensa de picar e acomodar no fornilho. Como não tenho o costume da lida, apanhei um pouco no trato, nada que pode atrapalhar ou inviabilizar o experimento, visto que a “falha” era minha e não do tabaco.    

Tabaco Jaguaribe produzido pela família Dalberto no Rio Grande do Sul

    
Ao acender fui tomado por um aroma desconhecido para mim, não tinha com o que comparar. Senti um leve adocicado espalhando pelo espaço, ficando na boca, subindo pelas narinas e temperando o tempo. Foi como um mergulho numa lagoa quente em noite fria, confortável e prazerosa a fumada dele puro. Não tão forte quanto poderia supor pela força do cheiro que, mesmo intenso, já era nessa fase, delicioso. Ganhou-me de pronto, abriu-me toda uma possibilidade de prazer e de, além da possibilidade da fumada, um pensamento do quanto não conheço ainda o tabaco produzido no Brasil. O Burley que comprei, destalei e piquei todo, foi um outro momento de descoberta e prazer, levei alguns dias para poder preparar tudo para que, assim, pudesse começasse a fazer minhas próprias misturas, também o fumo puro e sempre uma nova descoberta. 
Quanto desse tabaco é produzido e de quantas qualidades únicas? Quanto tempo perdi numa negação tola e cretina? A qualidade do que é produzido aqui é impressionante e deve ser levada em conta que, muitas vezes, é um exercício passado de geração para geração dentro das famílias do campo.   
Junto com essas descobertas vieram novos amigos, novos diálogos que me fazem crer que, o único caminho possível é a valorização de nossos produtores e suas histórias, além de ter um custo benefício bem melhor do que outros produtos fumíferos. A gama de tipos e qualidades é tão grande quanto nosso território, impossível conhecermos tudo, mas não custa ir tentando abarcar cada vez mais e mais o conhecimento através da fumada de cada tipo produzido em cada região do Brasil.    
O mercado internacional ainda não experimentou essa verdadeira iguaria e força do nosso campo, quando tiver a chance tenho certeza de que, para eles, também será um caminho sem volta, como é para mim enquanto escrevo esse texto. O tabaco nacional ainda crescerá em sua importância e consumo. Precisamos rever sua relevância para o hábito cachimbeiro com o mesmo cuidado que temos em outras áreas.      
A possibilidade de mistura entre diversas cordas, entre o virgínia e o burley, o acréscimo de aromatização natural, seja usando sucos, cachaças, café, temperos, rapé e tudo o que a imaginação e o risco deixar possível só tende a acrescentar em experiência, riqueza e sabor. Qual foi o último tabaco nacional que você fumou? Tente o tabaco em corda, converse com aqueles que o apreciem, se deixe levar por essa possibilidade. Garanto que seu ganho pessoal será imenso.
Prestar atenção e dar o devido valor, tanto ao artesão cachimbeiro quanto ao produtor de tabaco, é de suma importância para o nosso presente e futuro. Façamos o seguinte, peguemos nosso cachimbo, coloquemos uma boa carga no fornilho, acendamos, vamos conversar sobre o assunto. Todos ganharemos com isso.

JIM DURAN        
16 de junho de 20 

Apartamento 1003

Calado, diante de si
O Messias Indeciso,
descansa
da agenda cheia,
shows, viagens, hotéis.
O corpo, combalido,
do Quixote que empunha
guitarras e gritos.
Teve os bolsos cheios do
ouro de tolo da fama,
mítico herói Arjuna
em qual trem seus sonhos partiram?
Coração Noturno,
murmúrios,
pelos cantos, pelos móveis,
pelos discos antigos, pelos livros já lidos.
Calado o microfone,
a TV em chuvisco,
Na sua mente Elvis em 57.
passos lentos em pelos cômodos,
cansado corpo,
dez mil anos de aventuras.
Peixinho frito no fogão,
“Foi lá na beira do pantanal…”
Já é hora do trem partir,
vai partir o disco voador
nesse eclipse,
nos véus de Nuit.
Em paz, o caminho mágicko finda.

SJC, 10 de março de 20

Nação de invisíveis

Há uma nação de invisíveis
varredores de rua, ambulantes,
autônomos, malabaristas,
viciados, jogados dormindo sobre o papelão
cobertos por estrelas
(vez em quando, porrada).
Mães com seus filhos pequenos
mendigando por qualquer sinal
de humanidade.
Famílias inteiras ao relento
ganham olhares duros e acusatórios,
não tentam entender o caminho.
Há uma nação de invisíveis
vivendo em descaso, descuido
números em uma planilha de
campanha.
Falsos profetas lucrando
de alguma forma.
Suas campanhas que dão o peixe
apenas.
Mas impede o acesso à pescaria,
a lagoa está cercada.
Preferem santos às chagas abertas
de uma sociedade falida.
Nove jovens foram mortos em
Paraisópolis.
O estado não mata apenas
se puxa o gatilho.
Se trata o cidadão como
gado,
o estado é responsável quando
os vaqueiros
provocam o estouro da massa
que corre desenfreada
por sua vida.
Para o engravatado com seu
sorriso fracassado
foi apenas estatística.
Para famílias e amigos
são nove ausências,
saudade e boca calada.
Porque o estado, covarde,
tira do dele da reta.
Há uma nação de invisíveis
procurando trabalho,
vivendo em filas
com currículos nas mãos
e portas fechadas.
Personalidades que fazem caridade
e divulgação.
Postando a ajuda capenga
(que é ajuda)
esperando os dividendos,
dando esmola
como se fosse a solução.
Há uma nação de invisíveis
que não ganham “bom dia”
que não escutam “boa tarde”
que não conhecem “boa noite”
que jamais tem um “dorme bem”
Não há educação para com eles
Não há respeito para com eles
para o mundo perfeito
dos endinheirados,
Eu também tenho uma
capa de invisibilidade.
E, quando com ela,
eu sorrio e digo “bom dia”,
porque a educação choca
deixa alguns constrangidos.
Deixa outros surpresos,
eles não sabem que caminho
entre os dois mundos
na eterna noite em que vivo.
Faço meu caminho
chutando canelas e dizendo
“olá”
por toda uma nação de invisíveis.


São José dos Campos, 03 de dezembro de 19

Caminhando pelo vale.

A cidade ainda é labiríntica para mim. Ontem no Monte Castelo, tentei entender a topografia, como as ruas se desenhavam e se encontravam e distanciavam de onde supunha estar. Claro que não estava onde imaginei, estava onde estava, parado entre esquinas e debaixo de frondosa sombra. É bem arborizada e isso me faz feliz.
Caminho por horas e, mesmo assim, vejo no horizonte as montanhas que formam o vale. Distantes, mas visíveis, como uma lembrança de que sou pequeno e que o passo nos aproxima.
Sentado, aqui na cozinha de casa, eu penso no que ando vendo, nas pessoas que passam por mim e cumprimentam com certa cordialidade. Sigo, apenas isso, sigo adiante desenhando um mapa mental e pontos de referência para que não me perca. Mas perder-me seria bom também.

Praça Berlim.

Dias atrás eu saí pra caminhar com a Isis e passamos por uma praça aqui perto de casa. Lá tinha essa árvore que achei linda e comentei que voltaria depois para tirar algumas fotos. Hoje foi o dia em que fiz isso. Caminhei pelo entorno, reparando nos galhos, nas folhas, na copa, nas raízes e, também, em outras árvores por perto. Aqui estão as fotos que tirei na Praça Berlim.