Sobre gosto e qualidade.

Não me lembro ao certo quem estava comentando sobre uma visita que fez à Nova Iorque e quis experimentar a famosa pizza que é comida por lá. A pessoa entrou numa dessas pizzarias que vemos nos filmes e pediu uma fatia de cinco doletas, olhou o aspecto nada convidativo do que havia comprado e deu uma mordida. Não gostou, achou o gosto ruim, ficou chateado com a experiência e se foi terminar o dia pela cidade. Ao voltar para o hotel em que estava, comentou com um amigo o fato e a “má sorte” que teve. O amigo ouviu toda a história e respondeu calmamente: “Existem realmente pizzas muito boas por aqui, mas uma pizza de cinco dólares jamais terá o mesmo preparo e ingredientes de uma que custaria dez dólares.”
Em tudo na vida é assim, há o bom pelo preço justo e há o ruim. Comparo isso ao café, eu posso tomar três xícaras de um bom preparado com o dinheiro que compraria uma embalagem de 250 gr que me proporcionaria muito mais cafés que não me dariam o mesmo prazer. Já comprei cafés caros que não gostei, que foram, para o meu paladar, ruins. Já comi pratos lindíssimos que não me apeteceram, eram ruins para mim.
Os produtos são assim, há aqueles com boas matérias-primas e que resultam num ótimo preparo, assim como existem os com boas matérias-primas que são feitas de uma forma displicente e que acaba por arruinar o resultado e a qualidade de sua origem. Sabemos que isso de que “não há produto ruim” é desculpa de vendedor que quer enrolar o comprador.
No fim, o que determina para cada indivíduo a real qualidade do produto é o gosto de cada um. Isso ocorre com os cachimbos também. Alguns preferem de briar acima de qualquer outra madeira, pouco se atentando para a furação, o fluxo da fumada que ele permite, a qualidade da piteira, o peso do material, o acabamento e mais uma infinidade de pequenos detalhes que possam existir. O fato de ter sido feito em briar, não é sinônimo de qualidade. Acreditar que o material é superior, independente do processo pelo qual ele passa é fácil. Mas garanto que se me entregarem um pedaço de briar eu o estrago em menos de cinco minutos de uma forma que não tenha salvação. Se entregarem um pedaço do mesmo material a uma pessoa experiente, como o Mauro Bazzanella, daí sim haverá possibilidade de sair um cachimbo bonito e aceitável. Ele trabalha com isso há anos, eu nunca tentei. O que posso analisar, como cliente consumidor do produto por ele fabricado, são os aspectos de funcionalidade (isso é imutável, ou serve ou não serve), e os aspectos artísticos que possam me agradar ou não. O gosto é subjetivo, mas a qualidade não.
Não é preciso ser doutor em nada para ter um gosto próprio, não é preciso nada além da experimentação e da honestidade consigo mesmo. Dizer que não gosta de algo é ofensivo? Nem um pouco, Dizer que algo não combinou com seu paladar é errado? Jamais. Nos alimentamos, nos nutrimos, bebemos, fomos criados diferentes uns dos outros e temos uma informação de mundo que é única, pois só depende de nós. Há aqueles que não gostam e nunca provaram, há os que provaram e gostam, há os que dizem que não existe tabaco ruim, há aqueles que acham muito, acham por todos inclusive.
Claro que existe tabaco ruim, o tabaco que me queima a língua por conta da química, por conta do preparo, da forma acondicionada. Tabaco em corda com folhas de bananeira no meio, com terra, com uréia, com açúcar, com esterco, de folhas de determinadas partes e curadas de forma que as estraga não podem ser consideradas boas. Não podem ser consideradas um produto pronto para o consumo. Tem gente que não gosta de perique, de misturas balcânicas, de burley, de arapiraca, de virgínias, de misturas inglesas, gente que não gosta de latakia, tem gente que não gosta de verdade.
Espero que encontrem um bom tabaco, bem preparado, bem acondicionado, bem curado, bem tratado, bem colhido, bem plantado e que tenha um bom preço. E espero, também que não falte em seus fornilhos.

Uma consideração sobre “Sobre gosto e qualidade.”

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