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Sobre vira-latas, Tabacos e Cachimbos.

Cachimbo e folhas de tabaco tipo Burley.

O cachimbo é leal companhia no fim de um dia exaustivo, é o respiro, quando tudo desaparece sumindo na fumaça que sobe do fornilho. Fumar, lentamente, apreciando em paz o instante, pensando e repensando na vida, sentindo um conforto na alma a cada nova puxada de fumaça. Quando o tabaco que enche o fornilho brilha forte e vermelho, o tempo some do relógio e tudo se resume àquele momento em que estamos vivos.
Fumar cachimbo é um ritual simples, embora, alguns, gostem de encher de salamaleques e não me toques os seus fornilhos, a verdade é que é um exercício simples de contemplação e busca de si mesmo. O cachimbo é extensão de nosso ser, uma companhia a mais na hora de uma boa conversa, bebericando algo ou simplesmente fazendo a fumaça subir.
Nelson Rodrigues, em uma de suas crônicas referente ao futebol, já alertou para o complexo de vira-latas que determinados setores da nação tem, cria e exalta. O produto vindo de fora das fronteiras nacionais causa um frisson, um tesão danado em algumas pessoas. O fato do exemplo rodriguiano poder ser usado em diversos setores de nossa sociedade só reforça a possibilidade de ser. Mas, voltemos ao fornilho que queima.
O Brasil, país lindo de natureza exuberante, de belas árvores e de possibilidades ilimitadas seria capaz de produzir bons cachimbos à exemplo do que acontece com alguns países e determinados artesãos pelo globo afora? A resposta, nesse sentido de natureza e artesãos é: sim, podemos. A falha está no público consumidor que sente certa preguiça de experimentar tais possibilidades? Talvez sim. Precisamos quebrar certas barreiras culturais e olhar com mais carinho e respeito para nossas possibilidades.
Claro que, nesses meus vinte e sete anos de fornilho cheio, também eu adquiri alguns importados, deslumbrado mesmo com as histórias que ouvia e em um certo status da posse. Em tempos remotos de redes sociais já defasadas, costumava trocar muito com algumas pessoas sobre a nobre arte, eram conversas que, confesso, me sentia mais perdido do que participante. Sempre correndo para alcançar um podium que não era meu. Demorei anos para me tocar disso e, talvez, deixar essas conversas para trás não me tenha sido tão difícil.
Fiquei anos e anos fumando sozinho, sem ter o prazer da troca, sem ter com quem conversar de forma tranquila, sem me sentir apequenado por uma simples questão de que não poderia dispender mais do que dispunha para, afinal de contas, saciar um engano. Ouvia muito que “cachimbar era uma arte cara”, por isso mesmo para poucos. Nunca fui ou quis ser parte de elite alguma. Por isso, ficar no meu canto com meus livros e cachimbos com preços honestos e boa qualidade (alguns mesmo de excelente qualidade) para caminhar atrás de quem quer que fosse. Deixo claro que, nem todas as pessoas daquele círculo eram esnobes ou queriam aparecer, tanto que possuo contato com alguns deles ainda hoje, mas a maioria se foi. Não digo também que, os que podiam, estavam errados em gastar seu dinheiro com o produto que quisessem, afinal, apesar de nobre, a arte da cachimbaria é simples e possível à todos e, daí eu reconheço essa nobreza, a possibilidade de abarcar num mesmo grupo desde o rico empresário até o capiau no meio do mato, feliz em sua lida diária e sustentando nossas riquezas.
Recentemente tenho encontrado pessoas mais abertas à conversa que apostam na qualidade do produto nacional. Ótimos artesãos, desde os mais antigos até os que começaram há pouco tempo, vem solidificando o mercado nacional com bons cachimbos, belas peças e de ótima fumada além do ótimo custo benefício. Se acham que não estamos assim tão bem representados, enganam-se em seus fornilhos importados. Cito, da minha coleção, um Montana Churchwarden, dois Marcinei Bazzanella que estão constantemente em uso por aqui. Em breve chega mais e quero conhecer mais artesãos e conhecer seu trabalho, seus produtos.

Modelos Chubby e Oom Paul feitos por Marcinei Bazzanella

Meu pensamento é que, se temos aqui bons artesãos, com nos materiais e peças de beleza sem igual, porque não investimos e confiamos nesses produtos? Porque investirmos no importado? Ao apoiarmos o produto local, fortalecemos o mercado e ficamos forte, temos melhores condições de produção, comercialização e distribuição. Claro que há também a possibilidade de pagarmos um preço justo, honesto e cabível dentro de nossa realidade atual e, ouso dizer, vindoura. Fora a facilidade de poder tratar, muitas vezes, diretamente com o artesão, dar um retorno sobre o trabalho que ele executa, tirar dúvidas, apontar possíveis melhorias. Além de sermos, também, incentivador para que ele possa desenvolver sua arte de forma fortalecida e sabendo que é respeitado pelo seu público alvo. Todos ganhamos com a melhora da cadeia produtiva. Aos que nunca pensaram em adquirir um modelo nacional, convido que faça, não irá se arrepender em ter junto aos seus melhores cachimbos uma peça nacional.

Modelo Oom Paul feito por Marcinei Bazzanella



Sobre tabacos.

Assim como o cachimbo, o tabaco nacional tem sido boa companhia. Descobrir uma gama de sabores, aromas e força tem sido exercício diário a que tenho me dedicado de alma e paixão, sobretudo os tabacos em corda. Aqui também cabe uma confissão: nunca tinha tido coragem de experimentar o tabaco em corda. Sempre senti o cheiro forte e isso me afastava da possibilidade. No começo do ano fui à uma tabacaria no Mercado Municipal para ver se encontrava um tabaco que tinha fumado anos atrás, também nacional, e tinha uma lembrança agradável da fumada. Neste dia resolvi comprar também um pouco de tabaco em corda para experimentar.
Lá tinham três grandes recipientes com tabaco já preparado para enrolar em cigarro, comprei cem gramas de tabaco fraco e cem gramas do tabaco com força média, além de um outro tanto de virgínia puro. Em casa, com calma e um copo de água por perto, pude experimentar os dois, para mim, novos tipos de tabaco. Deixei o de força fraco respirando um pouco antes de encher meio fornilho para o teste. Este não me pareceu tão ruim quanto supunha que pudesse ser, me foi agradável mesmo ter feito o teste com ele puro, fumei um fornilho e meio dividido em diferentes momentos do dia. O de força média ficou para o dia seguinte e, dele, não fumei mais do que um fornilho, guardei-o para outras experiências. Fiz, depois, uma mistura do fraco com o virgínia puro, fumei por alguns dias. Fui me acostumando com a fumada e a complexidade da experiência. Aproveitei muito e fiquei feliz em ter me proposto esta ruptura de um preconceito que tinha em relação ao produto. Sempre fumei tabaco nacional, mas confesso que tinha essa fraqueza em não me permitir travar conhecimento com o fumo em cordas, talvez por uma ideia errada que o ligava somente a uma realidade que não era a minha, uma vida no campo, de trabalho em lavoura, uma ideia completamente equivocada, um complexo de Jofre que carregava em mim. Ledo engano em que, eu mesmo, fui o maior prejudicado. Não digo que, quem não se arrisca neste caminho está errado, cada um sabe o que coloca em seu fornilho, mas podem estar perdendo em prazer de uma forma descomunal, como eu mesmo perdi por décadas.
Novamente as conversas abertas com esse grupo novo descobri um tabaco que me é perfeito em questão de força, equilíbrio, sabor e prazer.   Uma corda feita com tabaco Jaguari produzido pela família Dalberto lá no Rio Grande do Sul. Tratei com o Gustavo a compra de um pedaço desse produto, além de um tanto de tabaco Burle ainda em folha e as expectativas, que eram alta, pelo tanto de pessoas diferentes que indicavam o tabaco, não fez juz ao produto. Nada que foi dito pode ser tão bom quanto a fumada do fornilho com o Tabaco Dalberto.

Folhas de Burley e uma bananinha do Tabacos Dalberto


Grata surpresa desde a abertura da “bananinha” quem vem embalado o tabaco, parecendo um tanto com uma bala baiana esticada. O aroma desprendido da corda, o brilho da capa já me dera uma vontade imensa de picar e acomodar no fornilho. Como não tenho o costume da lida, apanhei um pouco no trato, nada que pode atrapalhar ou inviabilizar o experimento, visto que a “falha” era minha e não do tabaco.    

Tabaco Jaguaribe produzido pela família Dalberto no Rio Grande do Sul

    
Ao acender fui tomado por um aroma desconhecido para mim, não tinha com o que comparar. Senti um leve adocicado espalhando pelo espaço, ficando na boca, subindo pelas narinas e temperando o tempo. Foi como um mergulho numa lagoa quente em noite fria, confortável e prazerosa a fumada dele puro. Não tão forte quanto poderia supor pela força do cheiro que, mesmo intenso, já era nessa fase, delicioso. Ganhou-me de pronto, abriu-me toda uma possibilidade de prazer e de, além da possibilidade da fumada, um pensamento do quanto não conheço ainda o tabaco produzido no Brasil. O Burley que comprei, destalei e piquei todo, foi um outro momento de descoberta e prazer, levei alguns dias para poder preparar tudo para que, assim, pudesse começasse a fazer minhas próprias misturas, também o fumo puro e sempre uma nova descoberta. 
Quanto desse tabaco é produzido e de quantas qualidades únicas? Quanto tempo perdi numa negação tola e cretina? A qualidade do que é produzido aqui é impressionante e deve ser levada em conta que, muitas vezes, é um exercício passado de geração para geração dentro das famílias do campo.   
Junto com essas descobertas vieram novos amigos, novos diálogos que me fazem crer que, o único caminho possível é a valorização de nossos produtores e suas histórias, além de ter um custo benefício bem melhor do que outros produtos fumíferos. A gama de tipos e qualidades é tão grande quanto nosso território, impossível conhecermos tudo, mas não custa ir tentando abarcar cada vez mais e mais o conhecimento através da fumada de cada tipo produzido em cada região do Brasil.    
O mercado internacional ainda não experimentou essa verdadeira iguaria e força do nosso campo, quando tiver a chance tenho certeza de que, para eles, também será um caminho sem volta, como é para mim enquanto escrevo esse texto. O tabaco nacional ainda crescerá em sua importância e consumo. Precisamos rever sua relevância para o hábito cachimbeiro com o mesmo cuidado que temos em outras áreas.      
A possibilidade de mistura entre diversas cordas, entre o virgínia e o burley, o acréscimo de aromatização natural, seja usando sucos, cachaças, café, temperos, rapé e tudo o que a imaginação e o risco deixar possível só tende a acrescentar em experiência, riqueza e sabor. Qual foi o último tabaco nacional que você fumou? Tente o tabaco em corda, converse com aqueles que o apreciem, se deixe levar por essa possibilidade. Garanto que seu ganho pessoal será imenso.
Prestar atenção e dar o devido valor, tanto ao artesão cachimbeiro quanto ao produtor de tabaco, é de suma importância para o nosso presente e futuro. Façamos o seguinte, peguemos nosso cachimbo, coloquemos uma boa carga no fornilho, acendamos, vamos conversar sobre o assunto. Todos ganharemos com isso.

JIM DURAN        
16 de junho de 20