Arquivo da categoria: Diários do Caminhante Noturno

Férias, barbeiros e uma tarde calma.

          Olhei para os alunos que ainda estavam na escola, o prédio vazio de toda aquelas centenas de gargantas gritantes e corpos que corriam mais que o tempo, e senti um pouco de calma, era aparente porque um dos alunos tinha caído e quebrado os braços. Uma rápida passada pela sala dos professores, depois pela secretaria e agradecer aos funcionários pelo apoio e por tudo feito. Depois um retorno breve à sala dos professores e aquelas despedidas de fim de ano e desejo de boas festas/férias/vida que segue e cão que ladra.
Ainda em frente à escola já desliguei o despertador no celular, não haveria motivo para que ele tocasse no dia seguinte. Chegar em casa, tomar um banho, um café, sentar no sofá e fumar tranquilo um fornilho do meu tabaco, era o que queria. Também alguns dias sem ler nada e ainda sem voltar a escrever aqui, queria descansar a cabeça, esvaziar um pouco para começar a reorganizar as notas do que fui produzindo por estes meses e mostrei somente para alguns.
Sai pouco de casa nestes dias que se seguiram. Ontem fui resolver algumas coisas e procurar um barbeiro. Barbeiro mesmo, estes senhores que aparam ou afeitam e tem uma conversa agradável sobre tudo e nada. Tinha um aqui perto de casa que eu ia. Ele nunca foi um exemplo de simpatia, tipo caladão que quando falava mostrava uma voz monótona. Na penúltima vez que aparou minha barba aproveitou e cortou meu lábio superior. Desculpou-se rapidamente, pegou um cristal meio rosado e esfregou com a delicadeza de um holigam o corte. Até hoje penso que meu sangue ficou com tanto medo do cara que resolveu estancar mais rápido. Na última vez já foi diferente. Fui mal atendido mesmo, na cara dura. Era uma terça-feira 09 da manhã, eu só tinha aula de tarde e por isso aproveitei a deixa e fui. Chego e sou informado que ele não trabalha mais com barbas e que só apararia a minha daquela vez. Topei, meu erro 1.
Ele começou o trabalho em silêncio, meio minuto depois começa o discurso: “Hoje em dia ninguém mais vem fazer barba. As pessoas trabalham e não tem tempo. Imagina um cara que trabalha no banco, ele acorda cedo e vai pro trabalho. Ele estudou e por isso tem um bom emprego.” Depois de ser chamado de vagabundo na cara dura, não ter levantado e socado a cabeça dele na parede (meu erro 2) respirei fundo e disse: “É verdade, nós que estudamos temos emprego assim. Sorte minha que sou professor e tenho uma manhã de folga para poder fazer o que quiser sem me preocupar com a opinião de qualquer um.” Nem tenho que dizer que nunca mais voltei lá. Onde já se viu, pagar caro para ser ofendido, (erro 3).
Fiquei bem uns dois meses sem aparar a barba. Tenho em casa aquela máquina, mas não gosto. Prefiro o papo, o ambiente, ouvir os causos de uma vida toda partilhada com os clientes. O problema seria encontrar ainda algum barbeiro aqui. O barbeiro está em extinção, destes velhinhos eu digo, fiquei pensando um tempo em como solucionar o problema e não cheguei a nenhuma solução. Ontem resolvi sair de casa, caminhar um pouco pela cidade, ver algumas pessoas e coisas assim. Terminei no antigo terminal rodoviário e fui cumprimentar um amigo, ao lado da loja dele existe um barbeiro. Perguntei se o cara era legal e me foi bem recomendado.
O “salão”do tal era um portal para o caos organizacional. As paredes tomadas por posteres de times de futebol (parecia as paredes de um boteco), o sujeito sentado em um banquinho assistindo a uma TV da década de 80 no máximo, daquelas com caixa que lembra madeira. A camiseta levantada deixando a mostra uma saliente barriguinha. Todo descabelado e com a barba por fazer, algo me alertava de que não seria uma boa ideia. Claro que não me ouvi e perguntei se poderia aparar a minha barba. Resposta afirmativa, me sento na cadeira e deixo-o trabalhar. Conversas sobre o tempo, minha profissão, a educação das crianças do tempo dele, a saúde do Pelé, o café da Ki-Pão, os agentes de trânsito que vivem papeando ao invés de fiscalizar… coisas assim. Terminado o trabalho, me olho no espelho e sorrio satisfeito. Me levanto e pago, barato e bem feito, nem tenho que dizer que ganhou um cliente (mas digo mesmo assim), ele me sorri de volta e nos despedimos.
Barba aparada, caminho de volta ao meus planos. Acendo o fornilho, coloco fones de ouvido e deixo o tempo passar. Férias, simples assim.

Nos preparativos para começar os trabalhos.

um reencontro

Eu estava gravando o Mosaico durante o carnaval quando vejo surgir uma mulher que amo de paixão desde o início do amor no mundo (faz tempo então). Thaís Fonseca é irmã e filha de amigos meus. Ela mesma se tornou uma. Mas em 1988 ela era uma menina linda e chata, que ficava cantando pelos cantos e atrás da gente que só queria se divertir. Eu tinha dez anos e nenhum saco. Sempre pedia para que ela se calasse, mas o tempo é sábio e ela nunca me deu bola.
Thaís cresceu e tornou-se cantora com uma nota de conforto na voz. Participou de programas de calouros na TV (com o Raul Gil na Band e posteriormente no SBT naquele Qual é o Seu Talento). O Enoch que é o pai dela me deu um DVD com algumas apresentações dela e eu sempre que posso o assisto sempre com um riso bobo. BABO MESMO porque tem talento e não porque é amiga.
Uma vez eu chorei ouvindo ela cantando Whitney Houston e durante essa entrevista que eu fiz com ela eu também chorei. Não me importo, o carinho tem dessas coisas. Abaixo tem algumas fotos desse encontro.