A Queda! Texto 2

A primeira coisa que você precisa saber realmente sobre essas postagens que irei fazer é: Não citarei nome de meus médicos e nem do que me foi receitado, pois isso diz respeito ao meu problema de saúde e o que preciso, e o tanto, em que preciso melhorar em minha vida. A dica óbvia que deixo aqui é: Procure um profissional de saúde, não acredite em receita milagrosa, não espere que seja de um dia para o outro, não pense que vai ser moleza. Ah, também não pense que você faz parte de uma minoria que consegue perder peso de forma saudável e responsável sozinho. Não que duvide de você, eu só não acredito nessa possibilidade em mim.
Há alguns outros fatores prejudiciais no meu caso que são o álcool e o tabagismo. Bebo e fumo desde muito cedo e, confesso que meu pendor ao destilado não é de grande ajuda. Fumei cigarros dos 13 aos 32 anos, um dia resolvi parar. Estava fumando e conversando com um amigo e quando terminei o cigarro disse que não fumaria mais cigarros. A partir dos 15 anos  comecei a fumar cachimbo e logo depois, creio que aos 16 ou 17, a fumar charuto. Ainda não parei com ambos, pois já não os fumo com a mesma regularidade. Posso dizer o mesmo do álcool. Em meados de fevereiro deste ano eu pensei em dar um tempo da bebida, ficar uns meses de boa. Sempre tive esses tempos de não querer beber ou fumar, então não era novidade.
Eu sempre fui obeso, desde criancinha. Então para mim é normal ser assim. Pouquíssimas vezes eu fui realmente magro (ainda acima de meu peso ideal, mas abaixo dos 100 Kg), ter vivido 40 anos assim me fizeram com que me sentisse bem. Sempre caminhei muito, por longo tempo, longas distâncias e sem me cansar além do normal.
Mas, de uns anos para cá, já não tinha a mesma condição física e nem ânimo para sair de casa. Seguia trabalhando dentro da normalidade e, para mim estava bem; Sabia que tudo isso era questão de perder uns poucos quilos e minha respiração melhoraria, só que não era bem assim. Me sentia pressionado com todos os meandros insalubres de ser uma pessoa concursada esperando pela eterna chamada por conta do estado, que aliás nunca veio. Outras infelicidades em minha própria vida contribuíam para que eu fosse alimentando o meu segundo maior inimigo, uma ansiedade incontrolável que havia criado uma barreira em mim e a alimentação controlada e sadia.  Uma vez por mês reunia ou poucos amigos que tinha e fazíamos um churrasquinho em casa, pois eu não conseguiria atravessar a cidade até a casa deles, mas a carne era uma desculpa para litros e litros de cerveja, cachaça e uísque.
Um dia estava fazendo compras e, no meio de toda aquele burburinho, de buscar pela memória a lista do que comprar, e fazer algumas contas. O mundo deu um loop, tudo parecia explodir no meu peito e  comecei a transpirar muito, fiquei parado, as mãos segurando firmes o apoio do carrinho, uma ânsia de vômito, um medo absurdo de estar ali, cercado.
Larguei o carrinho e saí, caminhei até minha casa, que para os meus padrões físicos da época não era perto, evitava as pessoas na calçada, evita os olhares, os esbarrões. Andei o mais rápido possível. Cheguei em casa, tranquei a porta, fui pro meu quarto e tive uma crise de choro, Fiquei três semanas sem conseguir abrir a porta da frente de casa, com medo do mundo, de tudo. Ia para o fundo e tentava espiar pela lateral da parede se havia alguém parado em frente ao portão. Espiava pela fresta das cortinas. O mundo queria acabar comigo e eu sabia que ele conseguiria. Não fui o mesmo desde então. Não atendia aos telefonemas, fiquei imerso em um mundo que, apesar de estar na minha mente, eu não conhecia. Tive que aprender a caminhar naquele terreno inóspito.
Fiquei assim, muitos meses, me sentindo mal, mesmo que, depois e, aos poucos, conseguisse sair de casa para ir a mercados perto, ou qualquer outra atividade. Mas não sem antes desenhar em minha cabeça todo um caminho que iria percorrer, na verdade eu criava dois caminhos, um para a ida e outro para a volta. Nunca me demorava fora de casa e, sempre que chegava, estava suado demais, mal conseguindo respirar ou pensar direito no que tinha acabado de fazer. Era um robô, sem consciência e sem memória, que apenas realizava o que tinha que ser feito.
Assim, fechado em casa, em mim, não havia muita coisa que poderia fazer além de beber, fumar e, uma vez por mês reunir dois amigos de extrema confiança para que viessem em casa papear, ouvir música e, talvez, eu conseguisse relaxar.
Assim, sem perceber eu fui perdendo o pouco de gosto pela vida que me restava. Só faltava me sentar no fundo do poço e esperar que alguém o fechasse. Aos 39 anos eu me sentia morto por dentro.

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