Bom dia aos amigos, e aos filhos da puta também.

“Bom dia aos amigos, e aos filhos da puta a também” Durante anos eu começava meus aqui assim. Até que um dia me chamaram a atenção e fiquei pensando sobre o fato de que, realmente não pegava bem, que não sei mais o quê. Ficar postando palavrão em rede social, que eu já tinha uma certa idade e tudo o mais que fazia todo o sentido, ainda faz.
Mas,agora, depois de repensar minha vida, meus hábitos, minhas crenças, meus gostos e o que eu espero para o futuro, percebi que sinto falta de um monte de coisa em mim. Isso de saudar aos filhos da puta não era só um “soltar um palavrão para parecer rebelde”. Primeiro que o palavrão tem uma função linguística e tudo o mais, faz parte do nosso cotidiano e mesmo de nossa criação enquanto povo. Daí vai ter um, porque sempre tem um que acha que é pra ele o texto, que vai dizer “Ah mas eu não falo palavrão.”, “Em casa meus pais nunca permitiram que se falasse um único palavrão”, Que bom, nunca disseram, parabéns. Mas já devem der pensando num “ah vai tomar no cu”. Costumo dizer que entre pensar e o fazer é a mesma coisa, claro que NÃO SE DEVE GENERALIZAR, há uma diferença entre pensar em mandar seu chefe, seu vizinho, seus pais, o padre, e dizer realmente. Assim como há uma diferença fudida entre pensar em matar uma pessoa e matar uma pessoa. O palavrão tem a sua função em nossa comunicação, serve para um determinado modo de discurso e tudo o mais.
Há também toda uma questão de criação e de família neste contexto (não só no meu contexto mas (aqui sim cabe a generalização) como um todo. Não consigo imaginar meu avô materno, que nasceu no fim do século XIX, permitindo que meus tios e primos mais velhos soltassem um palavrão perto dele. Vale o registro que o que disse agora tem toda uma base de EU ACHO, porque não o conheci. Ele morreu antes de eu nascer. Minha avó materna faleceu quando eu tinha poucos anos, talvez três ou menos ainda. E percebo o que é a criação de fato eficaz quando penso em meu tio José e minhas tias. Claro que todos tem seus defeitos e qualidades e que eu gosto mais de alguns do que de outros, mas os respeito.
Quando penso em meu lado paterno, ambos também falecidos, mas com quem que convivi até o início da vida adulta, e lembro de meu avô Orlando, sempre surgem imagens carinhosas, musicais e hilárias. Sempre achei meu avô uma pessoa extremamente bem humorada, sagaz, talentoso demais com seu violão e seu risinho. Coisas que lembro dele diariamente: Foi ele quem me ensinou a me barbear quando eu ainda era muito novo e o assistia em seu ritual, sentado à mesa da copa, com uma baciazinha de alumínio e seus apetrechos. O pincel que deveria ser mais velho que eu, o creme Bozzano, o espelho diante dele.Ele sempre me dizia uma piadinha. Me ensinou com exemplo mesmo, não dizia que eu iria ter uma aula pra vida toda. Quando ele tocava violão e todos nós cantando (até os desafinados tem coração) e eu ali, pequeno ainda, sendo educado com uma bagagem cultural fudida. Boleros, samba canção, bossa nova, marchinhas. Assim como os bordões que eu, volta e meia sem perceber, repito: porco cane,burrrrrro, Tudo veio dali. Quando ele teve seus probleminhas de saúde e precisou de ajuda, eu pude dar uma forcinha. Um dia ele me pediu que fizesse a barba dele que começava a crescer incomodar. Cara, eu barbeei meu avô. Na minha cabeça tudo passava rapidamente. Já não era mais o menino gordinho que assistia, era o adulto gordo que retribuía o amor. Sempre me lembrarei dele, sempre.
Quando penso na D. Terezinha, minha avó, vejo uma mulher alta, voz doce, uma beleza imensa, uns olhos lindos, uma voz linda de se ouvir cantar e acima de tudo uma fé enorme. Para mim ela sempre foi uma pessoa séria, uma mulher de seu tempo, com suas convicções e sua forma de ver e viver a vida. Uma PEREIRA, (piada interna que só os tios e primos irão compreender). Minha avó tinha medo que sentássemos na muretinha da área da frente (tinha mais de dois metros de altura), que corrêssemos pelo quintal (ela tinha razão, uma vez meu primo machucou a cabeça enquanto brincávamos) Lembro dela assistindo missa pela tv quando já não podia ir à igreja. Lembro do cheiro da comida dela (não vem falar que sou gordo porque comi demais a comida dela que tem o resto da família pra provar o contrário), tento replicar aquele tempero até hoje e nunca fica igual, nunca ficará eu sei. Sinto saudade de ouvir a voz cadenciada dela me chamando “Eduardo”. E quando penso nos dois e vejo meus tios com todos os defeitinhos deles e com todos os acertos, sei que tiveram uma boa criação, fruto do tempo deles.Não me lembro de ter ouvido minha avó dizer um palavrão, nunca. Meu avô soltava um “filho da puta” de vez em quando nas ocasiões em que acontecia algo errado ou de susto.
O que sei é que eu sou assim, goste você ou não, falo e escrevo palavrão quando acho que devo. Sei me comunicar, cresci tendo aulas e exemplos de comunicação vindos dos dois ramos de minha família. Mas sou, assim como eles foram, fruto de uma época diferente, onde bincávamos e brigávamos com a mesma facilidade. Cinco minutos depois estávamos de bem zoando de novo. Você não sou eu, não queira que eu viva do seu jeito, rezando a sua cartilha. Não vai acontecer. Sei respeitar as diferenças e compreender a singularidade de cada um. Se você não sabe: foda-se! Fiquem bem, olhem para os dois lados para atravessar a rua (sempre pra esquerda primeiro). Aproveitem a vida.

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