“Adoniran Barbosa – Uma Biografia”

Quando eu era pequeno e visitava a casa de meus avós em Bauru fazia uma tremenda viagem, sobretudo musical, guiado pelo lindo violão que “seu” Orlando tinha pendurado na porta de um quarto que ele, já mais perto de seus últimos vinte anos de vida, transformou numa salinha para assistir VHS. Mas quero falar das vezes em que sentávamos na área, ou na garagem, para ouvir ou ele ou minha tia, ou meu pai, tocar as músicas que mais gostavam. Tocavam boleros, guaranias, bossa nova e alguns sambas. Eu sempre adorei as composições de Adoniran Barbosa, mesmo não sabendo, ainda, quem era o tal e só as conhecia quando interpretadas pelos Demônios da Garoa.
Essas memórias me foram revisitadas enquanto eu li a ótima biografia de Adoniran escrita por Celso de Campos Jr. e lançada pela Editora Globo em 2003. A edição que tenho foi revista e ampliada em comemoração ao centenário de nascimento de João Rubinato, nome de batismo de Adoniran ocorrido em 2010, ele só adotaria o nome artístico Adoniran em meados de 1934. A leitura flui muito bem, o texto de Celso de Campos Jr. e leve e traz uma gama de informações relevantes para compreender não só a vida e obra do artista multifacetado, Adoniran era rádio ator, ator de cinema e TV além de compositor e cantor, mas também um retrato da cidade de São Paulo e do Brasil no espaço dos mais de setenta anos que viveu.
Relato bem humorado e emocionante o livro não poupa o biografado, não doura a pílula, e mostra um homem que, ao mesmo tempo em que era um retrato de sua época, também soube flertar com a atemporalidade de sua obra. Figura inteligente, soube como poucos, retratar a classe mais baixa da população e representou nos programas de rádio e algumas apresentações de circo, figuras como os moradores do morro, os taxistas, os comerciantes, os biscateiros, os vagabundos e, acima de tudo, os maloqueiros. Sempre com uma fala característica que misturava as heranças italianas e dos negros de então no versar e falar. Criou bordões e personagens, juntos com Osvaldo Moles, como Zé Conversa, o taxista Giuseppe Pernafina e o famoso Charutinho Espúrio da Silva. Hoje em dia seria tratado como machista, racista e outras coisas que, se ditas hoje em dia, trariam mais problemas com a “dona justa” do que reconhecimento e sucesso. Imagina ligar o rádio, ou mesmo ver na TV, e se deparar com uma figura soltando um “Chora na rampa, negrão.”
Celso traça, em seu livro, um ótimo panorama da era de ouro do rádio nacional e traz o surgimento de grandes ídolos que foram contemporâneos do biografado, como eram os bastidores de alguns dos programas, das viagens feitas pelo artista, algumas parcerias e como elas surgiram. Claro que há também alguns detalhes da vida íntima de Adoniran. Seus casamentos, família, filha, casas, manias e tudo aquilo que o cercava e o definia.

Resultado de uma pesquisa apurada o livro não deixa dúvida acerca da importância de Adoniran para o samba paulistano e muito menos para a vida cultural do país, visto o tanto de músicas compostas por ele que permanecem ainda hoje sendo executadas em rádios ou rodas. Ele foi , e é, um desses grandes artistas que estarão sempre em nosso cotidiano, mesmo que alguns não conheçam a  figura do simpático senhor com bigode fininho, chapéu de palha e aba reta e terno. Com uma voz rouca e um falar peculiar e retratando mesmo uma São Paulo que já não existia quando ele era vivo, Adoniran deixou saudade. O livro mata um pouco de tudo isso e não deixa dúvida, é uma saudosa maloca.

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Sobre Jim Duran

Professor, escritor, ator. Já foi chamado de Caminhante Noturno, já teve seus dramas e risos, lágrimas e desespero.
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