“Todos iguais, mas um mais iguais que os outros”

sem-tituloq

Há algo que me incomoda no frutífero universo dos canais, blogs, páginas ou outras plataformas literárias. Chega a me cansar, e a mesmo deixar de acompanhar determinadas pessoas, essa onda que é a repetição de informação provocada pela mesmice. Claro que sei da liberdade individual de cada um fazer o que bem entender, mas é  que está tão chato acompanhar as publicações simplesmente porque está  tudo a mesma coisa. Cito como exemplo outubro que é o “Mês do Terror”: chove leitura dos mesmos livros de sempre (Exorcista, algum relato sobre o casal Warren, alguma saga de vampiros, os mesmos Kings, os mesmos Baker, os mesmos dos mesmos. Deve haver outras coisas boas que não são lidas, ou não estão na moda e nem na lista de lançamentos das editoras. Em conversa com um amigo que, também tem um canal voltado a este nicho, comentávamos que, esta novidade da tal da internet ainda é muito recente e estamos mesmo descobrindo como se joga o jogo, ainda definindo regras e parâmetros. Estamos construindo uma estrada que, se continuarmos a pavimentar assim, nos levará à mesmice e pasteurização de costumes e pensamento. O problema não é associar a leitura a uma época determinada, ou a formação de clubes de leitura (virtual ou não) com a intenção de leitura e discussão de uma obra específica, sobre isso sou muito favorável e admiro que consegue participar. Mas é a fala de argumentos para se falar dos livros lidos, é o discurso que cansa, parece que todos gravaram o mesmo roteiro escrito pelo mesmo autor. O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues tem uma frase que eu adoro: “Quando todos pensam igual, ninguém está pensando”. Qual o problema em dizer que não gostou de tal livro, escrita ou tradução? Não somos obrigados a gostar de nada, nem a desgostar. Claro que muitos ainda estão começando a sua vida de leituras e é legal poder partilhar, poder descobrir que há mais pessoas que leem, que curtem, que querem mais e mais. Talvez esses mesmos ainda não tenham descoberto sua voz própria, seu caminho, sua linguagem, seus “sim” e “não”.
O exército de mimizentos enchem os comentários contrários àqueles que falam contra suas modinhas e seus autores tão normais quanto tomate na feira, já li comentários odiosos mesmo, pessoas chamando a outra de burra, afirmando que tal pessoa não sabe ler, que seu autor é o melhor do mundo. Mas, e a individualidade? E o pensamento de cada um?
Leio o que quero, quando quero e levo o tempo que levar. Alguns livros que me chegaram muito badalados, não passou de leitura chata, não vi esse brilho todo que todos defendiam. Tenho a minha história e minha própria bagagem para carregar, ler é mergulhar em si com auxílio.
Se a leitura é uma experiência individual, posto que cada um compreende, ou não, de uma forma íntima, como lemos ou assistimos a tantas análises tão semelhantes, inclusive com o recorrente uso dos mesmos termos. Todos estão lendo os mesmos livros, tendo a mesma experiência e falando as mesmas coisas. Me parece que, esta pasteurização das opiniões, em mim deixa mais com pulga atrás da orelha do que desperta o desejo de leitura, ou de conhecer um novo autor ou estilo. Algumas vezes até tento ler algo depois de alguns anos do boom, nenhuma das vezes foi consciente. Apenas me dei conta, ou na metade final da leitura, ou já no fim.
Não é também que o livro, filme, série, não possa ser tão bom assim como todos dizem. Mas é a fraca argumentação sobre as obras que me incomoda. O uso constante de termos que já se banalizaram pelo uso constante em conversas ou pretensos elogios também me afastam. Nada é top para mim, nada é perfeito. Assim como o que é belo para um, para outro não passa de corriqueiro. O que é leitura obrigatória para outros, seja porque é moda, porque mudaram a capa, porque a lombada tem um detalhe a mais, para outros é apenas um talvez. Não li boa parte dos livros
Que todos estão “resenhando”, nem pretendo ler. A minha leitura é movida pela curiosidade e prazer. Ou então pelo reencontro com alguma história já sabidamente boa para mim. Leio o que quero e quando quero, no meu ritmo e no meu jeito. Não leio para competir com ninguém em quantidade de livros lidos por ano. Se leio bastante em um mês, não quer dizer que no mês seguinte eu leia o mesmo tanto. Depende muito do tempo que tenho livre e de como anda a minha cabeça. Não me importo em voltar algum parágrafo se não compreendi da primeira vez, não me incomoda parar a leitura para digerir melhor o que vi, não me incomoda pensar um pouco mais. Vamos aprende
Aprendendo com o tempo que nosso tempo é único. Não há ordem unida, não é marcha militar, nem desfile, é leitura. É entrega e permissão, é a realização de uma vontade. Ler é fazer amor. Pode até ser rápido, mas tem que ser bom.

*a frase é de autoria de George Orwell e está em seu romance “A Revolução dos Bichos”

Anúncios

Sobre Jim Duran

Professor, escritor, ator. Já foi chamado de Caminhante Noturno, já teve seus dramas e risos, lágrimas e desespero.
Esse post foi publicado em Diários do Caminhante Noturno. Bookmark o link permanente.

3 respostas para “Todos iguais, mas um mais iguais que os outros”

  1. Barbara M. disse:

    Jim, antes eu tentava ler sempre os posts que o pessoal faz, hoje fico com preguiça pois a maioria do que é escrito parece ser em função de agradar as editoras pra conseguir parcerias 😦 Não que seja errado ter essa vontade, só acho um pouco triste pois parece que ganhar o objeto livro se torna mais importante do que adentrar na história e aproveitar a experiência que só a literatura nos proporciona.

  2. Matheus disse:

    Adorei o texto, também concordo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s