MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA – ANTES DO TOQUE DE RECOLHER

Faz de conta que não é com você. Quando o sacrifício for inevitável. Quando a calçada não te acolher mais com lisonjas, blues, e beijos no pescoço. Quando tudo parecer uma questão de tempo, fica ali com aquela cara de trouxa incorrigível fazendo de conta que não é com você. É um jeito confortável de reduzir sua cota de angustias. Uma tática de guerrilha silenciosa. E quando o ataque for tão forte que não der pra você simplesmente fazer de conta que não é com você, então meneie a cabeça obsequiosamente, sempre em movimentos afirmativos. Confere lá na despensa se os suprimentos são suficientes para essa trégua consentida. Diferencie sempre ataque de reprimenda gentil. Faz de conta que não é com você. E quando a tensão entrar pela janela na forma de um vento gelado, respira fundo e deixe sua memória afetiva te levar pra um cenário paradisíaco de palmeiras e gaivotas. Faz de conta que não é com você. Assobia baixinho um hino qualquer do filme Hair. Se sinta importante e quase orgulhoso por ter aprendido a negociar. Não com o mundo que ninguém é tão fodão assim. Eu tô falando de negociar contigo mesmo. Afinal você tá malaco de saber que o seu pior inimigo é você mesmo. Não culpe ninguém por sua perda de controle. Se faça acompanhar por sua escolta particular de truquezinhos manjados. Faz de conta que não é com você. Entenda que tudo é temporário. Quando sua garantia de vida apitar na curva, continua fazendo de conta que não é com você. Quando chegar a hora de cumprir as tais promessas. Quando os avisos do correio empilharem assustadoramente na sua porta. Quando a campainha intermitente soar perturbadora. Quando o cachorro uivar de frio. Quando te chacoalharem com as tais questões recorrentes. Aí você tem mais ainda que permanecer firme e fazer de conta que não é com você. Quando você se sentir totalmente desprotegido com seu coração batendo em estéreo, um alvo escandaloso pintado na sua cabeça. Quando você não tiver mais pra onde fugir. E quando o inferno libertar seus lacaios mais fiéis. Quando chutarem sua alma. Quando as bombas de gás entrarem impetuosas quebrando sua vidraça. Quando não houver mais como ficar por aqui, você vai perceber que sempre teve tudo a ver com você. Talvez seja tarde demais.

(Mário Bortolotto)

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Sobre Jim Duran

Professor, escritor, ator. Já foi chamado de Caminhante Noturno, já teve seus dramas e risos, lágrimas e desespero.
Esse post foi publicado em Diários do Caminhante Noturno. Bookmark o link permanente.

3 respostas para MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA – ANTES DO TOQUE DE RECOLHER

  1. cintia denise duran disse:

    Gostei muito do texto Jim..VC é brilhante!

  2. Texto simplesmente perfeito, mestre Jim. Obrigado por compartilhá-lo. 8)

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