“O TEATRO QUE CANSA” por Mário Bortolotto

O texto a seguir foi publicado no Facebook do dramaturgo Mário Bortolotto. Gosto de ler o que ele publica porque me faz pensar e, creio eu, temos alguns momentos de pensamentos próximos. Estive no Cemitério de Automóveis há alguns anos para a Noite Beat em comemoração aos 30 anos de lançamento da tradução feita por Claudio Willer do poema “Uivo” do Allen Ginsberg e foi uma noite feliz para mim. Ver tanta gente que sempre admirei no mesmo lugar e fazendo uma coisa que, para mim, é sagrada: celebrar.

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Mário Bortolotto e eu na Noite Beat no Teatro Cemitério de Automóveis.

Mas o texto não fala desta noite, fala de teatro, de como pode ser um saco e de como é revigorante ao mesmo tempo.

O TEATRO QUE CANSA
Este texto é apenas um desabafo de um dramaturgo e homem de teatro que está sempre cansado e repensando o ofício que escolheu. Não acho que interessa a quase ninguém, mas como eu sou o tipo de cara que escreve compulsivamente quando senta na frente do computador, não há como não escrever algo do tipo e publicar por aqui para quem tiver o mínimo interesse .
Venho brigando com o teatro há muito tempo. Devo muito a ele. Tenho mais de cinquenta textos escritos. Outras trocentas peças que dirigi e mais um porrilhão em que trabalhei como ator. Todas valeram a pena. Umas mais e outras menos. Muitas alegrias e muitas frustrações. Trabalhei freneticamente e exaustivamente até certo período da minha vida. Lembro sempre da Mostra de 2002 no Centro Cultural São Paulo que fizemos em três meses 26 peças com 79 atores sem nenhum centavo de patrocínio. Eu tava com todo o gás. Mas o teatro vai cansando. Às vezes eu me sinto um fantasma fazendo teatro. Confesso que tenho vontade de ficar em casa só escrevendo poesia ou meus romances e deixar o teatro pra lá. Como eu já escrevi por aqui, não preciso de muito dinheiro pra viver. Não tenho dívidas pessoais. Não sou ambicioso do tipo que precisa ter um carro do ano ou uma fazenda ou qualquer outro desses bens que muita gente almeja ter. Tenho um lugar onde eu posso fechar a porta e ficar lendo e escrevendo. E isso na verdade me basta. Lancei uma porrada de livros pela Editora Atrito que é a editora da minha ex-mulher e grande amiga Christine Vianna. Mas é uma editora pequena sem poder de divulgação ou distribuição. Mesmo assim todos os livros estão praticamente esgotados. É claro que todos eles (com exceção do meu primeiro romance “Mamãe não voltou do Supermercado”) tiveram apenas uma primeira edição, mas estão todos esgotados. E lancei alguns outros livros por outras editoras pequenas. Por exemplo, lancei o “DJ” que é um livro de contos pela Barcarolla, mas logo depois do lançamento a editora faliu e com isso não houve uma continuidade no processo de divulgação do livro. Lancei também o “Bagana na Chuva” pela “Ciência do Acidente”, mas logo depois a editora também faliu (sou o rei de falir editoras rs). Recentemente lancei o “Esse tal de amor e outros sentimentos cruéis” pela Reformatório que é uma editora também pequena de um batalhador incansável que é o Marcelo Nocelli. O livro teve várias resenhas positivas mesmo sem o poder de divulgação de uma editora grande e eu fiquei bastante satisfeito. Então eu sempre penso em ficar apenas escrevendo e deixar o resto pra lá. Teve um período que eu chamei de “anos do furacão” que eu fiquei quatro anos só escrevendo sem nenhum objetivo real (eu sequer pensava em publicar). Apenas chegava bêbado em casa e escrevia compulsivamente e publicava grande parte no meu blog. E tenho total consciência do grande número de pessoas que ficaram conhecendo a minha escrita graças ao meu blog em que escrevia invariavelmente embriagado. Foram quatro anos que eu não queria mais nada da vida. Escrevia, bebia e depois voltava a escrever e beber. Esses quatro anos estão documentados no livro “Os anos do Furacão”. Eu não queria escrever para teatro. Não me sentia estimulado. Lembro que nesse período escrevi apenas “Uma pilha de pratos na cozinha” que é um dos meus melhores textos (na minha bêbada opinião). Mas os jurados do Prêmio Shell daquele ano tiveram a manha de não indicar nenhum texto no semestre alegando que não havia estreado nenhum texto com nível suficiente para ser indicado. Eu lembro até que o jurado que falou isso era um figurinista rs. Esse fato fez com que ficasse ainda mais frustrado com a profissão que eu havia escolhido. “Uma pilha de pratos na cozinha” não era apenas um ótimo texto. Era uma peça muito bem dirigida com ótimos atores. Achei uma injustiça e resolvi parar de escrever pra teatro. Então apenas bebia mais e escrevia qualquer outra coisa, menos teatro. E vivi dessa maneira tortuosa até levar os quatro tiros no bar e ser obrigado a repensar a minha vida. E o mais irônico é que essa merda dos tiros aconteceu justamente quando havia acabado de fazer uma direção que tinha me deixado bastante satisfeito e que tinha insuflado em mim uma sobrevida teatral que tinha sido a montagem de “Brutal” que estava lotando sessões à meia-noite no Parlapatões. Mas por ter sobrevivido, me senti obrigado a retomar a minha vida de onde já havia parado há muito tempo. Então quando voltei, escrevi “Música para ninar dinossauros” (que também considero um dos meus melhores textos) que estreei na sequencia enquanto trabalhava como ator em uma das peças mais prazerosas que fiz que foi o “Êxtase” do Mike Leigh. Foi um bom renascimento. Depois fui perdendo a vontade de novo. Em 2012 ainda escrevi “O inferno em mim” que considero ao lado de “Homens, Santos e Desertores” os meus dois melhores textos, além de ser uma peça com uma direção irrepreensível dentro do que eu almejo como diretor. Mas foi outra peça totalmente ignorada. Não houve qualquer avaliação crítica do espetáculo. Parece que a peça não existiu. E eu fui me sentindo um fantasma de novo. Em 2013 escrevi a “Trilogia da Amizade” que são três textos que gosto muito (“Borrasca”, “A pior das intenções” e “Whisky e Hambúrguer”) e que também foram completamente ignoradas. E o teatro foi me cansando mais. E toda a dificuldade pra conseguir manter o nosso teatro funcionando e todos os perrengues foram me afastando ainda mais. Então quando sento na frente do computador, penso em escrever qualquer coisa (um poema, letra de música, um post no facebook, um trecho do meu romance, um e-mail pra um amigo) menos teatro, infelizmente. Acho cada vez mais inútil. E devo ser o dramaturgo depois do Nelson Rodrigues e do Plinio Marcos com mais textos adaptados para o cinema. Talvez o Marcelo Paiva também tenha. Mas até agora foram oito (sete longas e um curta). Três deles não me satisfazem e não sinto que são adaptações que conseguiram captar o espírito do meu trabalho, mas estão lá, estão produzidos e realizados e tá tudo certo. Mas os outros cinco são produções das quais eu me orgulho de ver adaptadas. Ainda não são o que eu acredito que posso conseguir em cinema, mas já são bastante próximas do que almejo. Como diretor realizei duas montagens que também gosto muito que são “Killer Joe” e “O Canal” de dois autores americanos. As peças tiveram ótima avaliação crítica, mas mesmo assim não conseguimos levar as peças para nenhum outro lugar a não ser apresentá-las em nosso teatro (que sempre está em vias de fechar). Todos os projetos que mandamos são recusados. Aí fico me perguntando: “Pq eu continuo a fazer teatro? Eu não preciso disso. Tenho que ficar em casa escrevendo meu romance, publicar por uma grande editora e ficar por aí participando de feiras de livros. A vida vai ser bem mais gratificante e divertida”. Mas aí acontece de eu cair na besteira de resolver dirigir um pequeno texto (no tamanho) como o do Bruno Goularte (“Morte entre amigos”) ontem no “Terça em Cena” e chamar três atores bacanas para interpretá-lo. E ver que tudo funciona como eu queria (não me interessa muito se as pessoas estão gostando ou entendendo o que quero fazer – essa não é uma atitude esnobe minha – simplesmente faço o que acredito independente da aprovação das pessoas e acho que todo artista deveria trabalhar assim – é claro que me frustra quando não conseguem reconhecer os méritos do trabalho como já disse aí em cima, mas o mais importante sempre vai ser o meu crivo estético e artístico – não trabalho com um medidor de ibope ao lado da minha mesa) e os atores obedecem a partitura da direção e consigo realizar a contento tudo o que imaginei na minha cabeça. E vejo as pausas, e respirações e intenções e detalhes e inserções sonoras e quedas de luz todas exatas. Então nesses momentos o prazer se renova e é nesses momentos e quase apenas nesses momentos é que entendo pq continuo fazendo teatro, apesar de todas as dificuldades e os perrengues e todos os contras. O teatro é capaz desses milagres. De pegar um sujeito cansado e fazer com que ele se renove com uma injeção de adrenalina. Não sei por quanto tempo, mas há dias que eu me sinto assim. E nesses dias eu agradeço por ainda amar muito esse negócio tão desprezado e que eu venho fazendo há quase 40 anos. Posso ser um ingênuo imbecil, mas nessas horas ainda percebo que tá valendo. Que o teatro sobreviva sempre, independente de mim ou de qualquer outro. Ele é maior que todos nós.
Link da publicação original https://www.facebook.com/mario.bortolottodois/posts/1052049741549512?pnref=story

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Sobre Jim Duran

Professor, escritor, ator. Já foi chamado de Caminhante Noturno, já teve seus dramas e risos, lágrimas e desespero.
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