No caminho de Amoré!

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divulgação Cia de Teatro Vermelho

Demorei um pouco para escrever sobre a peça do Grupo de Teatro Vermelho, “Amoré”, e a demora se explica quando o pensar no que assisti me remete sempre a um outro estado de percepção do fazer teatral. Não é simplesmente um espetáculo de palhaços, nunca é simples. A plasticidade cênica das figuras ali personificadas nos três atores Robertt Moretto como Lino e Juliana Bondareko Galante como Adelaide) é primorosa, forte e intensa como uma saudade de um canto no mundo onde a pessoa foi feliz uma vez, talvez tenha sido em Amoré (se a pessoa teve sorte). As imagens que me surgem ao pensar no trabalho me remete à literatura e ao cinema. Lino  é a inocência, poesia em estado puro e de nariz vermelho. É aquele que crê, que se apaixona, que perde o jeito diante da pessoa querida. É o que se atrapalha na simplicidade cotidiana.

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Em pé: Adelaide (Juliana Bondarenko Galante) Sentados: Cora (Mariana Corte Ferrari) e Lino (Robertt Moretto)

Cora é um pouco mais distante deste ponto, mas ainda assim há os mesmos ingredientes que formam Lino. É uma das faces do humor que mais me diverte, o mal humorado que é cômico, que é capaz de conquistar gargalhadas com sua cara fechada, com seus olhares de águia. Ela é a Rosa na mesma medida em que é o Pequeno Príncipe. Cora é a coroa da moeda que Lino completa e os dois se giram na medida que são jogados para o espaço por quem procura um pouco de sorte. Adelaide é um pouco Pateta misturado ao Grilo Falante de Cora. É a companheira que surge nesta história de amor para ajudar, por mais que tenha sua própria história e motivos. O amor está não só ar, mas nos pequenos detalhes que constroem essa epopeia em que estão mergulhados nossos heróis. Uma mistura de romance e pastelão, com pitadas de desencontro e atualidade, com fantasia e realidade absurda. É uma alquimia que me levou para uma viagem interior as minhas próprias histórias amorosas e reconhecer num momento como Lino e em outro como Adelaide, (por isso sou poeta talvez?), outras vezes Cora sou eu com meu mau humor desastrado e momentâneo de quem tenta falar sério e acaba fazendo piada sem querer.

Fernanda Cristina (técnica de som, luz e riso) com o elenco logo após a apresentação no 15º Festaett

Fernanda Cristina (técnica de som, luz e riso) com o elenco logo após a apresentação no 15º Festaett

A técnica (luz, som, efeitos), bem executada por Fernanda Cristina, são elementos que completam a viagem, tornando tudo mais belo ainda. Foi como um poderoso abraço, uma cola carinhosa, um colo terno em que pousamos a cabeça cansada do cotidiano. O trabalho está redondinho, correndo pelos trilhos por onde segue o que está bem feito. É atual e, mais do que isso, é atemporal. A Cia de Teatro Vermelho conseguiu, neste mergulho de apineia (pois foram fundo na questão), tocar no que há de melhor em nós. O lugar criado (AMORÉ) torna-se uma Terra do Nunca em que bailamos ao som de gargalhadas e suspiros emocionados pela possibilidade de amor, de amar. De ser mais que um, de ser dois, de ser muitos. Há amor no trabalho, no trato da história, na forma em que conduziram o espetáculo. Assistir “Amoré” é uma lição de como o que é simples pode dar certo e ficar em nós, no fundo somos seres simples, somos aqueles que procuram um lar e pode ser que tenhamos encontrado um “talvez” neste trabalho. Nada aqui é definitivo, nada é posto como de uma forma inconteste. Amoré para mim não é o destino, é o passo, o caminho, a viagem. É o encontro com a possibilidade de que algo de bom aconteça de bom. Ninguém está realmente preparado para a vida. Ninguém acorda já sabendo o que irá acontecer no próximo momento, a cada pensamento tido. Estamos em modo aleatório, por mais que cremos estar no controle. Por esse motivo, e por outros tantos, é que ter contato com um trabalho assim torna-se imprescindível para mantermos acesa a chama da inocência que, tenho certeza, nos salva da dureza da vida. Suspirem, Amor é.

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Como não se sentir bem?

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Sobre Jim Duran

Professor, escritor, ator. Já foi chamado de Caminhante Noturno, já teve seus dramas e risos, lágrimas e desespero.
Esse post foi publicado em Diários do Caminhante Noturno e marcado , . Guardar link permanente.

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