Sobre “Noite do Oráculo” de Paul Auster

Paul Auster escreve um livro que flui tranquilo. A história é ágil e orgânica, contudo, não é para o leitor desatento. São diversas histórias que se entrelaçam durante toda a  narrativa. Sua meta literatura, suas possibilidades de desenvolvimento prende a atenção  de forma natural e segue a leitura sem sofrimento algum. Mas, se você não permanecer atento corre o risco de descer na estação errada.
O enredo fala de Sid, um escritor que se recupera de um problema de saúde. Ele é casado com Grace, uma funcionária de uma editora, responsável pela arte das capas dos livros. Há também um outro amigo, John Trause, que aparece bastante na história, também ele é escritor, só que ao contrário de Sid ele já é um autor renomado. O universo literário e seus desdobramentos poderiam ser também um outro personagem. O exercício da escrita está ali a todo momento e é bem interessante avaliar outra possibilidade de criar, mesmo que seja em um universo ficcional e se passe no início dos anos 80.
Um dia, numa de suas caminhadas matinais, ele entra em uma pequena papelaria que pertence ao histriônico M.R. Chang. Desfila pelas prateleiras de produtos prestando atenção a tudo e esperando que algo chame a sua atenção (parece comigo, adoro fazer isso), ele encontra um caderno de capa azul e de folhas quadriculadas, um caderno feito em Portugal. (O caderno pode ser considerado um outro personagem/amigo?) O tal caderno torna-se um sopro de ar na vida atual de Sid, quase uma muleta, um amuleto. Até então ele estava apenas se recuperando de seus problemas sem ao menos tentar produzir nada de novo. Da pena de sua caneta surge uma história interessante e que avança sem muito esforço até determinado ponto. Na trama escrita no caderno os personagens também são envolvidos no ramo da literatura (escrita e editoração), ele é um editor que é procurado pela neta de uma grande autora americana da década de 20. Ela encontrou um original inédito da avó e pretende publicar. pode ser o início de uma boa amizade, ou algo mais, porém cheio de confusas atitudes.
Mesmo parecendo que não há um fio condutor, as histórias correm em paralelo e fica claro quando lemos um ou outro relato. Não há, contudo, uma separação física entre uma ou outra, não há sinais gráficos e nem alteração na fonte do texto. A mudança entre as realidades acontecem simplesmente.
Auster é um grande frasista também e, no livro, estão alguns petardos que me fizeram voltar a leitura para as partes que marquei. Como é bom poder saborear estas frases e reler e reler. E isso não atrapalhou em nada o ritmo da minha leitura, assim como ler as extensas notas de rodapé escritas por Sid, dando a impressão de que ele realmente existe para além do universo austeriano.O livro se torna um tipo de uma ficção biográfica de Sid.
Terminar a leitura foi como levar um soco na cabeça, não desses que esperamos levar pelo fato de estarmos em uma briga, foi um golpe que me pegou distraído, mesmo estando absorto na leitura. Fica a dica de uma boa leitura para um fim de semana, para o meio da semana, para sempre.

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Sobre Jim Duran

Professor, escritor, ator. Já foi chamado de Caminhante Noturno, já teve seus dramas e risos, lágrimas e desespero.
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2 respostas para Sobre “Noite do Oráculo” de Paul Auster

  1. Uma história dentro da outra! Ler esse livro deve ser como se pudéssemos saber o que se passa com o escritor ao escrever! Belíssimo texto Jim! E quero muito ler este livro!! Bjooo

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