Uma tarde com a Geração Perdida.

                O carro do correio chegou. Fui atender sem grande expectativa, na certeza de que seriam contas e propaganda, não era. Um pacote pardo, compacto e firme me foi entregue. Assinei os papéis do recebimento e voltei para a sala. Alguns dias antes havia chegado o livro “Shakespeare and Company – Uma livraria na Paris do entre-guerras” que é as memórias da livreira e (digo por achar mesmo) grande ativista cultural, Sylvia Beach. Já publiquei no Facebook e no Instagram que o Carlos do canal “Bolseiro do Sul” aguçou minha vontade de ler esse livro que trata de uma parte do século XX que eu gosto muito (no âmbito literário). Hemingway e sua patota foram importantíssimos enquanto desenvolvia o hábito da leitura.
As frases curtas, os parágrafos precisos, as tramas, os dramas, as ações, as personagens criadas por Hemingway vagueavam em meu imaginário marcando em definitivo o meu desejo de, além de ler também escrever minhas próprias histórias. Ali, naquelas páginas tive toda a certeza de que o mundo era infinito e que a solução era ter pernas fortes para caminhar pelas histórias.  Mais ou menos na mesma época eu li uma biografia dele (creio, se não me falha a memória, que era “Hemingway Por Ele Mesmo” lançado pela Martim Claret) e descobri que ou havia um pouco de vida real na ficção dele, ou um pouco de ficção no que deveria (deveria?) ser o real. Isso me fez admirar mais ainda o autor. Por isso tudo ler o “Shakespeare and Company” me é tão especial, poder saber um pouco mais  da vida dele e das pessoas que conviveram ali naquela situação. Eu sei que o foco não é ele, mas aborda também.
Daí a curiosidade para saber o que tinha no envelope pardo foi maior e resolvi abrir. Caramba, era a biografia do Hemingway que eu havia comprado uns dias antes num sebo do Rio de Janeiro e que imaginei demoraria algumas semanas para chegar. A primeira vez que eu vi este livro foi em um sebo que fica na rua Dr. Vila Nova, atrás do Mackenzie, lá em São Paulo. Custava quase cem reais e, por mais que desejasse muito ter o livro, não pagaria esse valor por um livro em sebo. Um livro que nem é relativamente tão velho e nem tão raro assim. Deixei o tempo passar, vez em quando eu dava uma procurada na net, nos sebos, nos lugares em que se encontra os livros que se quer ter. Encontrei por vinte reais e comprei, claro caramba, eu seria um louco se não tivesse feito isso.

Livros, pena e tabaco. De volta a época da Geração Perdida.

Livros, pena e tabaco. De volta a época da Geração Perdida.

Agora eles estão aqui me olhando enquanto escrevo, olho-os também e me lembro de mim mesmo aos quatorze, quinze anos. Se você abrisse minha mochila da escola com certeza encontraria algum livro de Hemingway ou Conan Doyle (mas Conan Doyle fica para outro dia). Hoje, aos 37 anos, se você abrir minha mochila encontrará algo sobre esse mesmo universo. O tempo passou legal, mas o que era bom para mim ainda é. Fico feliz de poder ter lido e relido muita coisa desse cara e de mais alguns que fizeram parte da chamada Geração Perdida. Agora me despeço, tenho bons livros e um charuto para desfrutar minha tarde de folga.

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Sobre Jim Duran

Professor, escritor, ator. Já foi chamado de Caminhante Noturno, já teve seus dramas e risos, lágrimas e desespero.
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3 respostas para Uma tarde com a Geração Perdida.

  1. Bolseiro do Sul disse:

    Obrigado pela citação meu caro. Sua mochila em tempos de escola tinha recheios com sabores parecidos com a minha. Sir Conan Doyle também perambulava pela minhas costas quando eu sentava na escadaria do antigo colegial, e depois cursinho, para ler um pouco dessas coisas. Grande Abraço!

  2. Livros de Calla disse:

    Só os quem tem amor por livros entenderiam a beleza deste post! Espero que a sua leitura seja extremamente prazerosa.

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