Entrevistas – revista beatbrasilis

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Há alguns anos um grupo de amigos criou uma revista virtual chamada beatbrasilis. A ideia era termos um lugar onde publicássemos nossa produção literária de poemas, crônicas, contos e tudo o mais. Não me lembro em que ponto realmente eu fiquei com a parte das entrevistas, acho com quase convicção de que fui eu quem se ofereceu para a missão. Como sempre militei nessa área ficaria mais fácil com a escrita e tudo o mais. Gostava e gosto ainda daquela revista. Foram nove edições apenas num espaço de alguns anos (o projeto não era o de rendimento financeiro, era mais de aglomerar um grupo, por isso a fazíamos no hiato da vida cotidiana.) e ficou um ainda inédito, sonho com o dia em que conseguiremos parir a tal edição. Em minha lista de links está o blog da revista, quem quiser conhecer o material e baixar tudo é só ir… aproveita que é de graça.
Mas vim falar aqui da beatbrasilis porque irei republicar aqui as matérias que escrevi e meus textos que foram feitos para lá. Como tem muita gente que visita e lê o blog resolvi trazer esse material aqui.

Espero que curtam.

Sem título

O primeiro texto abre a primeira edição. É uma crônica sobre Glauber Rocha.

A fome por Glauber

 

Há algo que me emociona nos filmes e no pensamento de Glauber Rocha. Não são os prêmios e nem a qualidade de sua obra, nem sua genialidade. Há em Glauber a urgência dos vencidos pela vida como os visionários em geral têm estampados em seus olhos que fazem falta. Em sua verborragia caótica o ilustre filho de Vitória da Conquista, (BA) contou as histórias de farwest que tanto amava com elementos genuínos do cotidiano sertanejo. Um matador vestido de sobretudo matou a tiros e a sangue frio um de seus tios quando ele era pequeno. A cena ficou gravada em sua memória e serviu de base para a construção daquele que foi um dos seus personagens mais lembrados, o caçador de cangaceiros Antônio das Mortes de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “ O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” vivido nos dois filmes pelo grande Maurício do Vale. A vida sempre serve de base para as criações que ficam para a história. A câmera na mão e o turbilhão na cabeça não foi só uma característica de Glauber, foi a impressão digital de uma geração que soube subir e descer do bonde na hora certa. Lutou até o fim pelo o que acreditava ser o melhor não só pra si mas para o cinema brasileiro por que sabia de sua importância para a arte tupiniquim e sabia também que sua influência ultrapassaria ao movimento do Cinema Novo.Ele emprestou a pouca sanidade que tinha a uma causa que nunca pensou estar perdida. Soube elogiar um dos pilares do golpe militar, Golbery Silva e foi execrado pelos desavisados de plantão que mantêm sempre a boa imagem de bons moços, mesmo quando querem ser marginais. Foi para a televisão gritar pela abertura em um programa que foi novidade e ainda seria hoje em dia.A vida que derrotou Glauber também o encheu de paixões. Casou-se com uma mulher que foi também símbolo de seu tempo e foi traído por ela. Soube ser maior do que rancor machista e casou-se mais um tanto, teve filhos como quem teve idéias. Um dos seus rebentos mais novos, Érick Rocha é autor de “Rocha que voa”, documentário sobre o pai a arte é herança genética na família Rocha, digo isso de cadeira.Ele, Glauber, costumava ficar em casa sentado de cuecas e recebia seus amigos assim. Não perdia tempo com coisas pequenas como o banho, a barba ou pentear o cabelo. Glauber foi urgente, viveu mesmo sem claquete como disse Arnaldo Jabor. Sua vida não teve edição, mas não ficou só no copião perdido nos corredores da Embrafilme. Quem vê hoje o moderno cinema nacional deve olhar no castanho raivoso do olhar glauberiano. Somos seus seguidores fiéis, mesmo que alguns não se apercebam do óbvio que isso soe.Quando um cinema exibe um filme feito aqui na Pindorama que ele anunciou com a Terra em Transe ele sorri descabelado e lúcido com seu cigarrinho de maconha pendendo nos lábios. Nunca se deitou em berço esplêndido, sempre caminhou por sobre espinhos e sempre esteve descalço. Glauber não aceitou a coroa de gênio mas aceitou o drama do realizador. Deixou de exemplo a fé em si e o ensinamento de que há hora de luta e há hora de beijo. Onde estaria Glauber Rocha se não tivesse voltado de Portugal para morrer em português nacional, como brincava Tom Jobim que acabou morrendo em inglês. Estaria filmando com certeza por que a vida é sempre sem claquete. Revejam Glauber, devemos isso a ele.

Uma consideração sobre “Entrevistas – revista beatbrasilis”

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